No tabuleiro do agronegócio brasileiro, uma nova peça está se movendo com velocidade surpreendente e mudando as regras do jogo: o etanol de milho. O que antes era um coadjuvante no mercado de combustíveis agora acende um “alerta amarelo” para os gigantes do setor. Um relatório recente do Rabobank aponta que a expansão acelerada desse biocombustível pode gerar um excedente de oferta capaz de balançar as cotações de duas das principais commodities do país: o açúcar e o próprio etanol.
Até pouco tempo, o setor de cana-de-açúcar tinha uma saída clássica para momentos de crise: se o preço do açúcar caía, as usinas produziam mais álcool; se a gasolina subia, o açúcar virava o protagonista. Agora, essa válvula de escape está sob pressão.
A Ascensão do Milho: De 0 a 10 Bilhões em uma Década
A indústria de etanol de milho, que mal aparecia no radar há dez anos, deve entregar cerca de 10 bilhões de litros na safra 2025/26. Mais do que volume, o milho traz uma vantagem logística: as plantas podem ser instaladas próximas às áreas de produção de grãos, reduzindo custos e operando o ano todo, ao contrário da cana, que depende da sazonalidade da colheita.
O Dilema das Usinas: Não Há Para Onde Fugir?
O grande risco identificado pelo Rabobank é um possível desequilíbrio estrutural. Com tanto etanol de milho entrando no mercado, o setor de cana enfrenta um impasse:
- Excesso de Etanol: Se as usinas optarem por produzir combustível para fugir de preços baixos do açúcar, podem inundar o mercado doméstico, derrubando os preços na bomba.
- Superoferta de Açúcar: Se decidirem focar no açúcar para evitar o prejuízo com o combustível, podem causar uma saturação global, derrubando os preços internacionais do adoçante.
Para completar o cenário desafiador, projeções de um petróleo Brent abaixo dos US$ 60 e juros ainda elevados em 2026 tornam a margem de lucro das usinas cada vez mais apertada.
O Que Isso Significa para a “Nova Economia”?
Este movimento é um exemplo prático de como a tecnologia e a diversificação de matérias-primas estão transformando setores tradicionais. A eficiência das plantas de milho e a integração com a cadeia de proteína animal (através dos resíduos DDGs) mostram que a sustentabilidade no agro não é apenas ecológica, mas uma questão de sobrevivência financeira.
Para o investidor e o profissional de carreira no setor, o recado é claro: a agilidade para ler o mercado e ajustar o “mix” de produção nunca foi tão vital. O Brasil continua sendo o protagonista mundial do açúcar, mas agora precisa aprender a equilibrar essa força com um vizinho que cresce a passos largos no próprio quintal.
