O avião de combate com características únicas que o Congresso dos EUA questiona a aposentadoria por seu papel decisivo no apoio a tropas

fernando bianchi
O avião de combate com características únicas que o Congresso dos EUA questiona a aposentadoria por seu papel decisivo no apoio a tropas

O A-10 Thunderbolt II, conhecido pelos pilotos como “Warthog” (Javali), tornou-se uma aeronave lendária nas Forças Armadas dos Estados Unidos não por ser o caça mais rápido ou tecnologicamente mais avançado, mas porque conquistou uma reputação única: proteger soldados em terra e voltar para casa mesmo após sofrer danos que derrubariam a maioria das aeronaves.

Enquanto muitos caças foram concebidos para derrotar outras aeronaves e conquistar a superioridade aérea, o A-10 nasceu com uma única missão: dar apoio às tropas que lutam no solo. Projetado durante a Guerra Fria para destruir grandes formações de blindados soviéticos, com o passar das décadas, o Warthog mostrou-se extremamente eficiente em ataques de precisão em baixas altitudes, conquistando o respeito de veterenos nas mais diversas campanhas das Forças Armadas.

Durante as últimas décadas e nos conflitos como no Afeganistão, Iraque e Síria, o A-10 ganhou enorme prestígio entre soldados americanos, e ficou conhecido por uma características peculiar: o som da sua metralhadora de 30mm de dispraro múltiplo GAU-8/A, capaz de disparar 3.900 projéteis por minuto.

Mas o projeto do Warthog, que teve voo inaugural em 1976, agora enfrenta incertezas diante das necessidades da guerra moderna. Com sucessivas previsões de aposentadoria adiadas ao longo dos últimos anos, o futuro da aeronave novamente é tema de discussão no Congresso dos EUA, que quer estender a vida útil da frota até que haja um substituto à altura.

Aposentadoria prevista

Na proposta inicial de orçamento para o ano de 2027, a Força Aérea dos Estados Unidos previa aposentar ao menos metade da forta dos lendários A-10 Thunderbolt II para concentrar recursos em aeronaves mais modernas argumentando que o Warthog não possuia capacidade de combate para os conflitos do futuro.

Mas o cenário de combate no Oriente Médio, com a guerra dos EUA contra o Irã, fez as Forças Armadas repensarem esse cenário e admitir que os aviões podem ficar em serviço até 2030. A aeronave tem sido empregada em missões como o ataque a embarcações iranianas no Estreito de Ormuz, segundo o Pentágono.

Agora, uma proposta bipartidária, apresentada pelo deputado republicano Abe Hamadeh, do Arizona, com apoio do democrata Don Davis, prevê que a Força Aérea mantenha o Thunderbolt em operação ao menos até 2033, até que exista um substituto plenamente validado para o avião.

Um Thunderbolt decola de uma rodovia pública nos EUA, demonstrando a versatilidade do jato militar. Foto: USAF

O argumento é de que a aposentadoria do icônico jato de ataque colocaria em risco uma capacidade militar essencial para as forças terrestres americanas. Enquanto um F-35 ou F-16 normalmente precisa retornar mais cedo para reabastecimento ou realizar outras missões, o A-10 pode permanecer muito mais tempo dando cobertura às tropas.

O ato foi denominado de “Bolstering Recognition, Resurgence, Retention, and Remembrance of the Thunderbolt”, ou “BRRRRT Act”, fazendo uma alusão ao som do canhão dianteiro de 30mm do “Javali”. O projeto prevê também que os EUA mantenham a infraestrutura necessária para sustentar a operação da aeronave.

Tanque de guerra nos ares

As capacidades de combate do Thunderbolt oferecem à aeronave características únicas que os caças projetados para superioridade aérea, como o F-35, atualmente não possuem, comparando o Warthog a um tanque de guerra voador.

Segudo a Força Aérea dos EUA, essas aeronaves podem permanecer em órbita nas proximidades de zonas de combate por longos períodos e realizar pousos em pistas precárias. Seu amplo raio de ação e a capacidade de decolagem e pouso em pistas curtas permitem operações a partir de locais próximos às linhas de frente.

O Thunderbolt também é capaz de resistir a impactos diretos de projéteis perfurantes e de alto explosivo de até 23 mm. Seus tanques de combustível autovedantes são protegidos por camadas internas e externas de espuma.

Além do canhão de 30mm, o Thunderbolt possui capaciade de armamento com:

  • Até 16.000 libras (7.200 kg) de armamento misto distribuído por oito pontos de fixação sob as asas e três sob a fuselagem;
  • Bombas das séries Mk-82 (500 libras/225 kg) e Mk-84 (2.000 libras/900 kg) de baixo e alto arrasto;
  • Bombas de fragmentação incendiárias, munições de efeitos combinados, munições dispensadoras de minas;
  • Mísseis AGM-65 Maverick, bombas guiadas a laser/GPS;
  • Foguetes de 2,75 polegadas (6,99 cm) não guiados e guiados a laser.

Sistemas manuais servem de alternativa aos sistemas hidráulicos redundantes de controle de voo, permitindo que os pilotos conduzam a aeronave e realizem o pouso mesmo em caso de perda de potência hidráulica.

O futuro do Warthog

Apesar da histórica utilidade do Thunderbolt no apoio a tropas e em outras operações, a Força Aérea dos EUA considera que conflitos futuros contra adversários como China e Rússia exigirão aeronaves furtivas e de maior alcance, como o F-35, o futuro F-47 (caça de sexta geração dos EUA) e drones de combate autonomos, limitando o papel de um avião projetado nos anos 1970.

Mesmo assim, muitos analistas avaliam que o A-10 dificilmente terá um substituto direto. Em vez disso, o mais provável é que suas funções serão distribuídas entre diferentes plataformas — caças de quinta geração, aeronaves não tripuladas e sistemas autônomos —, cada uma assumindo parte das missões que hoje o Thunderbolt II ainda desempenha com excelência.

Entre as principais vertentes para o combate moderno estão o F-35A Lightning II, o F-15E Strike Eagle e F-16 Fighting Falcon.

Apesar disso, o alto custo de manter as plataformas mais modernas como o F-35 pode acabar legando uma sobrevida à frota dos Thunderbolt, que se provaram aeronaves extremamente versáteis e capazes de desempenhar vários papéis nas últimas campanhas norte-americanas.

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