A análise de 1.770 ferramentas encontradas na Caverna Ararat-1, na Armênia, indica que grupos humanos usaram o local, entre 52 mil e 35 mil anos atrás, como ponto de parada para descansar, reparar equipamentos e reabastecer seus kits.
Caverna Ararat-1 reunia ferramentas associadas a diferentes padrões de mobilidade
A Caverna Ararat-1 é uma formação de calcário localizada a 1.034 metros de altitude, nas encostas orientais da Depressão de Ararat, na região central da Armênia e a nordeste do Monte Ararat.
Os artefatos examinados pertencem ao Paleolítico Médio tardio e foram produzidos aproximadamente entre 52 mil e 35 mil anos atrás. O conjunto apresenta ferramentas feitas principalmente de duas matérias-primas, a obsidiana e o sílex.
A obsidiana é um vidro vulcânico e constituía o principal recurso pétreo da região. As peças encontradas na caverna apresentavam indícios consistentes de retoque, remodelação e reparo, características associadas à conservação prolongada das ferramentas.
Segundo a interpretação dos pesquisadores, os fabricantes carregavam ferramentas de obsidiana prontas ou parcialmente acabadas e procuravam mantê-las utilizáveis durante seus deslocamentos. Em alguns casos, o material vinha de afloramentos situados a dezenas ou quase 200 quilômetros de distância.
O sílex apresentava um padrão diferente. Em vez de chegar ao local na forma de ferramentas transportadas por longas distâncias, ele era trabalhado principalmente do zero dentro da própria caverna.
As peças de sílex também mostravam menos sinais de conservação e remodelação. Isso sugere que a matéria-prima era coletada nas proximidades, usada de maneira prática para necessidades imediatas e descartada quando deixava de ser útil.
Obsidiana e sílex criaram um enigma sobre a ocupação da caverna
Arqueólogos utilizam as formas de produção, conservação e descarte de ferramentas como indicadores da mobilidade de populações antigas. Equipamentos duráveis, multifuncionais e transportados por longas distâncias costumam ser associados a grupos que mudavam frequentemente de lugar.
Ferramentas simples, fabricadas com materiais encontrados nas proximidades, geralmente estão relacionadas a permanências mais longas. Nesse cenário, a substituição de uma peça desgastada demandaria pouco esforço porque novas matérias-primas estariam facilmente disponíveis.
A dificuldade encontrada em Ararat-1 foi a presença dos dois comportamentos nas mesmas unidades sedimentares. A obsidiana apontava para alta mobilidade, enquanto o uso do sílex poderia ser interpretado como sinal de uma ocupação mais prolongada.
“A caverna Ararat-1 nos deixa com um enigma em relação às maneiras de interpretar a assinatura de mobilidade”, afirmaram os pesquisadores.
“Dentro das mesmas unidades sedimentares, observamos dois cenários interpretativos distintos para a mobilidade: um conjunto de ferramentas mais móvel, representado pelos conjuntos de obsidiana, e um menos móvel, como indicado pelo sílex”, acrescentaram.
A combinação levou a equipe a investigar se uma das matérias-primas representaria um caso atípico ou se as duas faziam parte de uma estratégia planejada pelos grupos que visitavam a caverna.
Fragmentos menores que 2 centímetros ajudaram a reconstruir as visitas
Para interpretar essa aparente contradição, os cientistas analisaram pequenos fragmentos produzidos durante a afiação ou revitalização das lâminas. Muitos desses vestígios tinham menos de 2 centímetros.
Como uma parcela expressiva dos artefatos de Ararat-1 está abaixo desse tamanho, a equipe desenvolveu um sistema dividido em cinco categorias. O objetivo era identificar lascas resultantes da manutenção das ferramentas.
Esses fragmentos funcionaram como evidência das atividades realizadas na caverna, inclusive quando as ferramentas originais já não estavam presentes. Os detritos permitiram rastrear momentos em que as peças foram afiadas, reparadas ou remodeladas.
Os pesquisadores combinaram esses vestígios com as informações sobre as distâncias percorridas pela obsidiana. A análise levou à interpretação de que Ararat-1 não funcionava principalmente como um acampamento-base ocupado durante longos períodos.
A caverna teria servido como um ponto de parada visitado repetidamente por períodos mais curtos. Ali, os grupos descansavam, faziam reparos e reabasteciam os conjuntos portáteis de ferramentas de obsidiana antes de continuar seus deslocamentos.
Ao mesmo tempo, o sílex encontrado nas proximidades era extraído e trabalhado dentro do local. As ferramentas feitas com esse material atendiam às demandas mais imediatas e não recebiam o mesmo nível de conservação das peças transportadas.
Estratégia combinava equipamentos portáteis e recursos encontrados no local
Para a pesquisadora Ariel Malinsky-Buller, do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica, os resultados demonstram que os antigos caçadores-coletores adotavam estratégias flexíveis durante seus deslocamentos.
“Eles não se baseavam em uma única maneira de fazer as coisas”, afirmou a pesquisadora. Segundo ela, esses grupos equilibravam equipamentos portáteis usados em longas distâncias com materiais disponíveis localmente.
A interpretação indica que cavernas como Ararat-1 eram utilizadas para repouso, manutenção dos equipamentos e preparação dos deslocamentos seguintes em uma paisagem considerada desafiadora pelos pesquisadores.
O estudo também se insere em um amplo registro arqueológico do Cáucaso. A região reúne mais de 450 sítios paleolíticos conhecidos, dos quais aproximadamente 60% pertencem ao Paleolítico Médio.
Esses locais incluem cavernas, abrigos rochosos, sítios a céu aberto e pontos onde apenas um objeto foi encontrado. Eles aparecem em cânions fluviais, terraços, planaltos montanhosos, colinas, domos de lava e penínsulas costeiras.
Os resultados da pesquisa sobre as ferramentas e os pequenos resíduos de manutenção encontrados na Caverna Ararat-1 foram publicados na revista científica Quaternary Science Reviews.

