Startup francesa de minirreator nuclear Naarea, que recebeu 10 milhões de euros em subsídios e levantou 90 milhões no mercado, entra em recuperação judicial após estimar necessidade de 2 bilhões para concluir projeto de pequeno reator modular
A startup francesa Naarea, focada em pequenos reatores modulares, entrou em recuperação judicial em setembro de 2025 após captar 90 milhões de euros e estimar necessidade total de 2 bilhões, em meio a incertezas técnicas, atraso de apoio estatal e dificuldades para garantir suprimento de plutônio.
A crise marca uma reviravolta para a empresa criada há seis anos, que havia prometido implantar seus reatores até o início da próxima década.
Em dezembro de 2023, o fundador Jean-Luc Alexandre reuniu funcionários e investidores em Paris para apresentar um grande modelo do minirreator que pretendia lançar no mercado.
A celebração ocorreu após a Naarea conquistar 10 milhões de euros em subsídios públicos. O evento simbolizou um ano de expansão e otimismo, segundo pessoas que participaram do jantar e conhecem o executivo.
Meses depois, porém, a empresa enfrentou um aperto financeiro considerado brutal. O projeto, centrado em pequenos reatores modulares, passou a enfrentar obstáculos técnicos, regulatórios e financeiros que colocaram a companhia à beira da liquidação judicial.
Expansão global dos pequenos reatores modulares e desafios crescentes
A queda da Naarea ocorre enquanto mais de cem empreendimentos nucleares no mundo buscam desenvolver pequenos reatores modulares.
Esses projetos pretendem fabricar unidades replicáveis, do tamanho aproximado de um ônibus grande, para abastecer fábricas e data centers.
Especialistas apontam que os desafios técnicos e o elevado volume de financiamento necessário antes da geração de receitas vêm se tornando mais evidentes.
Nicolas Goldberg, da Colombus Consulting, afirmou que startups costumam vender uma visão ambiciosa, o que considera normal nesse estágio.
Ele observou que o desenvolvimento de um novo reator nuclear não é um processo comum e lembrou que a indústria passou décadas utilizando poucos projetos validados. Segundo ele, há razões históricas para essa concentração tecnológica.
Estrutura financeira e dependência do apoio estatal
Alexandre, ex-executivo da Alstom e da Suez, afirmou que o Estado francês demorou a ampliar o apoio após a concessão inicial de recursos em 2023.
Para ele, essa demora dificultou novas captações privadas, pois investidores buscavam uma prova clara de engajamento governamental.
A empresa levantou 90 milhões de euros com escritórios familiares e contatos empresariais, principalmente nos primeiros anos. Ainda assim, estimava precisar de 2 bilhões para concluir o projeto de pequenos reatores modulares.
Em 2023, a Naarea contava com cerca de 300 funcionários e ocupava três andares de um edifício comercial nos arredores de Paris.
Havia cumprido a promessa de criar um modelo digital do reator, mas estava em estágio preliminar nas conversas com o regulador nuclear francês.
No ano seguinte, o governo, que havia destinado 1 bilhão de euros ao setor de SMRs, permaneceu em silêncio quanto a novos desembolsos.
Em junho, o presidente Emmanuel Macron convocou uma eleição legislativa antecipada que resultou na perda de seu bloco, desencadeando crise política prolongada.
Dúvidas técnicas sobre combustível e cronograma
Ex-funcionários, investidores e autoridades apontaram questionamentos sobre o processo de reciclagem de combustível no qual a Naarea pretendia se basear. Havia dúvidas sobre a velocidade de desenvolvimento da tecnologia.
A empresa planejava utilizar combustível líquido à base de sal fundido e sal como refrigerador, em contraste com reatores refrigerados a água.
A tecnologia apresenta vantagens potenciais, mas requer pesquisa extensiva, inclusive quanto aos efeitos corrosivos.
Também surgiram dúvidas sobre a disponibilidade de plutônio. Apenas poucos centros no mundo o disponibilizam, incluindo instalações na Rússia e em La Hague, na França.
Em La Hague, cerca de 12 toneladas são separadas por ano, em sua maioria já comprometidas com a EDF.
Segundo pessoas próximas à empresa, a Naarea poderia precisar dessa quantidade para apenas um reator. A questão levantou preocupações adicionais sobre a viabilidade de escalar os pequenos reatores modulares.
Nos bastidores, um órgão público francês avaliou 12 startups do setor. O relatório, não divulgado, teria identificado múltiplos obstáculos enfrentados por empresas, incluindo a Naarea.
Tentativa de venda e desfecho judicial
Após fracassar em novas captações, a empresa pediu recuperação judicial em setembro de 2025. Em dezembro, a Eneris, grupo de tratamento de resíduos para energia apoiado por Artur Dela, apresentou oferta de 500 mil euros para adquirir a companhia.
Em janeiro, a Eneris retirou a proposta um dia antes de audiência destinada a formalizar o acordo. Como o tribunal forçou a aquisição a prosseguir, a empresa solicitou a liquidação da Naarea.
Em comunicado, a Eneris declarou ter identificado problemas jurídicos, trabalhistas e tecnológicos que teriam sido ocultados, concluindo que a Naarea estava em um impasse tecnológico.
Alexandre contestou as críticas e afirmou que auditores analisaram a tecnologia durante o processo judicial. Disse ainda que buscava acessar resíduos nucleares fora da França para obtenção de plutônio, sem especificar locais.
O executivo declarou que as contratações iniciais eram necessárias devido às milhares de horas de engenharia exigidas pelo projeto. Em 2024, reduziu o quadro de funcionários e cortou custos para limitar prejuízos.
“Meu erro foi confiar demais no Estado francês“, afirmou.
O Ministério das Finanças francês não respondeu a pedido de comentário. Para Goldberg, os desafios enfrentados pela Naarea refletem um quadro mais amplo: poucos projetos de pequenos reatores modulares estão validados globalmente, o que representa o maior obstáculo do setor.
Assim, a trajetória da empresa expõe as dificuldades técnicas, regulatórias e financeiras que cercam o desenvolvimento de uma nova geração de reatores nucleares, em um mercado que ainda busca consolidar bases tecnológicas comprovadas e sustentáveis.
Com informações de Folha de São Paulo.

