Incorporado em 1977 e desativado em 1997, o submarino Riachuelo trocou a patrulha secreta do Atlântico Sul por uma nova missão, receber a visita de quem nunca imaginou entrar num submarino
Por vinte anos, o submarino Riachuelo cumpriu uma das rotinas mais silenciosas e sigilosas da Marinha do Brasil, sumir sob a superfície do Atlântico Sul e vigiar sem ser visto. Hoje, atracado no centro do Rio de Janeiro, ele faz o oposto, fica exposto para que milhares de pessoas atravessem suas escotilhas todos os anos.
Construído na Inglaterra e incorporado à Marinha em 27 de janeiro de 1977, o Riachuelo pertencia à classe Oberon, uma linhagem de submarinos convencionais que estava entre as mais avançadas de sua época. Segundo a Marinha, ao longo da carreira ele navegou mais de 180 mil milhas náuticas, o equivalente a dar oito voltas na Terra, boa parte disso submerso.
O nome não é casual. Ele remete à Batalha do Riachuelo, de 1865, o confronto naval que garantiu a supremacia brasileira na Guerra do Paraguai e virou data magna da Marinha.
Um caçador da Guerra Fria
Quando entrou em serviço, o Riachuelo trazia o que havia de mais moderno em guerra submarina. Foi com ele que a Marinha do Brasil experimentou na prática novas técnicas de controle de avarias, sonar de identificação por análise espectral, controle de tiro computadorizado e navegação eletrônica por satélite, avanços registrados em detalhe pela imprensa naval especializada.
Aquele era o auge da Guerra Fria, e o Atlântico Sul não estava fora do tabuleiro. Submarinos como o Riachuelo treinavam para o cenário mais duro, patrulhar, escoltar e, se preciso, negar o mar a uma força inimiga, participando de grandes exercícios internacionais como as operações UNITAS e FRATERNO.
Manter uma força submarina operando exige décadas de aprendizado acumulado, tripulações formadas com rigor e uma indústria capaz de sustentar as máquinas. O Riachuelo foi uma peça central nessa construção, uma escola flutuante que formou gerações de submarinistas brasileiros.
De arma secreta a sala de aula
Em 12 de novembro de 1997, depois de mais de vinte anos de serviço, o submarino foi desativado. Em vez de virar sucata, ganhou destino raro, tornou-se museu, aberto à visitação no Espaço Cultural da Marinha, no centro do Rio.
A troca de missão tem um valor que vai além da nostalgia. Ao caminhar por dentro do casco apertado, sentir o cheiro do metal e imaginar meses debaixo d’água sem luz do sol, o visitante entende, de corpo inteiro, o que significa servir num submarino, algo que nenhum texto explica por completo.
Para crianças e jovens que atravessam as escotilhas, o Riachuelo é a porta de entrada para uma parte da história naval que costuma ficar escondida sob o segredo militar. É a Marinha aproximando a sociedade daquilo que faz longe dos olhos do público.
De 1865 ao submarino nuclear
A trajetória do Riachuelo costura três séculos de história naval brasileira num só nome. Ele nasce da vitória de 1865, atravessa a Guerra Fria como caçador silencioso e desemboca no presente, quando um novo Riachuelo, o primeiro da classe do programa de submarinos de Itaguaí, dá continuidade à saga.
Essa continuidade é o coração do esforço para consolidar a Força de Submarinos, hoje voltada para o objetivo maior de dotar o Brasil de um submarino de propulsão nuclear. O museu no centro do Rio mostra de onde vem esse conhecimento, acumulado casco a casco ao longo de décadas.
Preservar o velho Riachuelo é, no fundo, lembrar que capacidade militar não se improvisa. Cada milha navegada pelo submarino da Guerra Fria ajudou a pavimentar o caminho para a ambição estratégica que o país persegue agora nas águas de Itaguaí.

