Caça britânico Fairey Delta 2 superou 1.000 mph em 1956, criou nariz articulado para pousar e acabou influenciando o design do Concorde
egundo o Simple Flying, em 10 de março de 1956 um pequeno caça experimental britânico chamado Fairey Delta 2 (FD2) atingiu 1.132 mph (1.822 km/h) em voo nivelado, tornando-se o primeiro avião do mundo a ultrapassar a marca de 1.000 mph. O feito colocou o Reino Unido de volta ao topo da aviação mundial em plena disputa tecnológica da Guerra Fria.
O detalhe mais curioso não estava apenas na velocidade. Para permitir que o piloto enxergasse a pista durante o pouso, o avião utilizava um sistema em que nariz e cabine se inclinavam cerca de 10 graus para baixo. Décadas depois, esse mesmo conceito seria refinado e aplicado no Concorde, o avião comercial supersônico mais famoso da história.
A Grã-Bretanha que ficou para trás na corrida por aviões supersônicos nos anos 1950
No início dos anos 1950, o Reino Unido enfrentava um atraso crescente em relação aos Estados Unidos na corrida por aeronaves supersônicas. Segundo registros históricos compilados pelo Simple Flying e por materiais da indústria britânica, os americanos avançavam rapidamente enquanto os britânicos ainda buscavam soluções experimentais.
Para reagir, o Ministry of Supply emitiu uma especificação técnica para um avião de pesquisa capaz de estudar o comportamento em velocidades transônicas e supersônicas. A Fairey Aviation venceu o contrato e colocou o projeto nas mãos do engenheiro Robert Lickley.
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A solução adotada foi ousada: uma asa delta extremamente fina, com cerca de 4% de espessura, uma das mais delgadas já construídas até então. O projeto recebeu o nome técnico Type V, mas ficaria conhecido como Fairey Delta 2 (FD2).
O problema de visibilidade que levou à criação do nariz articulado do FD2
A configuração aerodinâmica do FD2 resolvia o problema do arrasto em alta velocidade, mas criava outro desafio crítico: a falta de visibilidade frontal durante pouso e decolagem.
Segundo registros técnicos citados pelo Simple Flying e pelo BAE Systems, o nariz longo e o ângulo de ataque bloqueavam praticamente toda a visão do piloto em baixa velocidade.
A solução foi criar um sistema em que toda a seção frontal da aeronave — incluindo a cabine — podia ser abaixada em até 10 graus. Durante o voo rápido, o nariz retornava à posição original para manter a eficiência aerodinâmica.
Essa solução, inicialmente vista como um detalhe técnico, se tornaria décadas depois uma das características mais icônicas da aviação supersônica.
Falha de motor e pouso extremo marcaram os primeiros testes do Fairey Delta 2
O primeiro voo do FD2 ocorreu em 6 de outubro de 1954, com o piloto de testes Peter Twiss, segundo registros do This Day in Aviation.
Pouco tempo depois, em novembro de 1954, o avião sofreu uma falha grave de motor a cerca de 30.000 pés de altitude. Sem propulsão e com perda de pressão hidráulica, Twiss optou por não se ejetar.
Ele conseguiu planar a aeronave até a base de Boscombe Down, pousando a mais de 270 km/h. O avião ficou seriamente danificado, mas o piloto sobreviveu e foi posteriormente condecorado pela Coroa britânica.
Durante esse período, o programa seguiu sob sigilo. Segundo o Guinness World Records, os voos eram pouco divulgados, e os estrondos sônicos chegaram a causar danos em propriedades rurais próximas às áreas de teste.
O dia em que o Reino Unido quebrou o recorde mundial de velocidade por larga margem
Na metade dos anos 1950, o recorde mundial de velocidade pertencia aos Estados Unidos, com cerca de 822 mph. Observando que o FD2 já ultrapassava essa marca em testes, a equipe decidiu tentar o recorde oficial.
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Segundo o Guinness World Records, a tentativa ocorreu no sul da Inglaterra, entre Chichester e Ford, com o avião voando a cerca de 38.000 pés.
Em 10 de março de 1956, após várias tentativas frustradas por limitações técnicas de medição, Peter Twiss conseguiu completar o percurso dentro das regras internacionais.
O resultado foi uma média de 1.132 mph (1.822 km/h), superando o recorde anterior por mais de 300 mph, um salto extremamente raro em registros desse tipo.
De avião recordista ao protótipo que ajudou a criar o Concorde
Apesar do recorde, o FD2 manteve o título por pouco mais de um ano. No entanto, sua importância técnica cresceu com o tempo.
Segundo o BAE Systems, um dos exemplares do FD2 foi profundamente modificado para testar a asa delta ogival, essencial para o desenvolvimento do Concorde.
A aeronave modificada, conhecida como BAC 221, recebeu nova asa, fuselagem alongada e melhorias estruturais. O nariz articulado foi mantido e refinado, tornando-se base direta para o sistema usado no avião supersônico comercial.
Os dados coletados durante anos de testes ajudaram a validar o comportamento aerodinâmico que o Concorde utilizaria em operação real.
Onde está hoje o Fairey Delta 2 e o legado que ele deixou para a aviação
Dos dois exemplares construídos, um está preservado no RAF Museum Cosford. O outro, o próprio avião que bateu o recorde, está no Fleet Air Arm Museum, já na configuração modificada.
Segundo registros históricos da indústria aeronáutica britânica, o FD2 deixou um legado muito maior do que seu curto período operacional sugere.
Ele demonstrou a viabilidade de estruturas para voo supersônico extremo, ajudou a desenvolver soluções aerodinâmicas avançadas e, principalmente, criou o conceito de nariz articulado, que se tornaria símbolo do Concorde.

