Lula e Haddad na convenção estadual do PT em São PauloFoto: Diogo Zacarias/Divulgação/ND Mais
Fernando Haddad (PT) iniciou uma nova fase de sua campanha ao governo de São Paulo ao reduzir os ataques ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nas redes sociais e passar a destacar sua trajetória como prefeito da capital e ministro dos governos Lula. A mudança ocorre após a oficialização de sua candidatura e representa uma tentativa de apresentar credenciais administrativas ao eleitor, em vez de concentrar a comunicação apenas no confronto com o adversário.
Nos últimos dias, o petista publicou conteúdos que relembram realizações da gestão na Prefeitura de São Paulo, como obras e programas municipais, além de medidas do governo federal das quais participou, entre elas a reforma tributária, o Desenrola Brasil e a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
Para o cientista político e estrategista eleitoral Elias Tavares, a mudança é coerente com o momento da disputa e indica uma transição na estratégia da campanha. “No início, Haddad tentou aumentar a rejeição ao adversário. Agora ele precisa aumentar a aceitação da própria candidatura. São movimentos eleitorais diferentes”, diz.
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Haddad reduziu ataques a Tarcísio nas redes sociaisFoto: Diogo Zacarias/Divulgação/ND Mais
Segundo o especialista, enquanto os ataques a Tarcísio faziam sentido para tentar desgastar o governador, esse tipo de comunicação perde eficiência quando o adversário mantém índices relevantes de aprovação e a polarização já consolidou parte do eleitorado.
“Por isso, Haddad passa a precisar responder a outra pergunta: por que o eleitor deveria escolhê-lo? Recuperar ações da Prefeitura de São Paulo e sua passagem pelo Ministério da Fazenda é uma maneira de apresentar currículo, experiência administrativa e capacidade de governo”, explica.
Benefício para Haddad ou para Lula?
Ao dar maior destaque às ações do governo federal e ao período em que comandou o Ministério da Fazenda, Haddad também reforça sua associação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A estratégia pode ajudar a consolidar a base petista, mas também levanta dúvidas sobre o protagonismo do candidato na disputa estadual.
PT reuniu Lula, Alckmin e aliados para oficializar candidatura de Haddad ao Governo de São PauloFoto: PT – Partido dos Trabalhadores/YouTube/ND Mais
Para Elias Tavares, esse é um dos principais desafios da campanha. “A associação com Lula pode ser um ativo porque entrega a Haddad uma base eleitoral identificada com o presidente e permite que ele apresente realizações concretas de um governo do qual participou. Mas Haddad precisa evitar que essa associação substitua sua própria identidade política.”
Na avaliação do cientista político, recuperar também a passagem pela Prefeitura de São Paulo ajuda a equilibrar essa percepção.
“Haddad precisa aparecer como alguém que participou do governo Lula, mas possui biografia, experiência administrativa e projeto próprio para São Paulo. É por isso que recuperar também sua passagem pela Prefeitura de São Paulo faz sentido. A prefeitura ajuda a territorializar sua candidatura: tira Haddad apenas de Brasília e o recoloca dentro da experiência política paulista.”
Fernando Haddad, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PTFoto: Diogo Zacarias/Divulgação/ND Mais
Ele resume o desafio da campanha em uma frase: “Lula pode funcionar como avalista da candidatura, mas não pode substituir o candidato. Haddad precisa usar o governo federal como credencial, não como identidade exclusiva.”
Comunicação mira o eleitor indeciso
A redução dos ataques a Tarcísio também pode representar uma tentativa de ampliar o diálogo para além do eleitorado tradicional do PT.
De acordo com Elias Tavares, em um cenário de polarização, críticas ao adversário tendem a mobilizar apenas quem já está convencido. “Quando os dois polos possuem bases relativamente consolidadas, atacar o adversário tende a produzir retornos decrescentes. A disputa passa, então, pelo eleitor menos ideológico e mais pragmático, aquele que pode transitar entre centro-esquerda e centro-direita e avaliar atributos como capacidade administrativa, experiência e propostas.”
Para ele, a estratégia busca oferecer razões para que eleitores sem identificação partidária considerem votar no petista: “Em vez de falar exclusivamente com quem já rejeita Tarcísio, Haddad tenta oferecer razões para que um eleitor que não é necessariamente petista considere votar nele.”
Nacionalização da disputa traz vantagens e riscos
Ao associar sua campanha ao governo Lula, Haddad também nacionaliza parte da eleição paulista, estratégia que pode beneficiar o PT entre eleitores favoráveis ao presidente, mas que também apresenta riscos.
“Segurança pública, transporte, infraestrutura, educação, saúde e desenvolvimento regional são temas essencialmente estaduais. Se a campanha ficar excessivamente nacionalizada, Haddad corre o risco de não construir uma resposta suficientemente clara para a pergunta fundamental de uma eleição estadual: qual é o projeto dele para São Paulo?”
Além disso, conforme Elias Tavares, a estratégia pode estimular a mobilização do eleitorado antipetista, beneficiando indiretamente Tarcísio. Para ele, a mudança de postura faz sentido diante do cenário eleitoral, mas não significa abandonar completamente o contraste com o atual governador.
“Ela é coerente com o desafio eleitoral que os números apresentam, mas envolve um equilíbrio delicado. Haddad possui dois desafios simultâneos: reduzir sua própria rejeição e aumentar sua competitividade entre eleitores que não pertencem ao núcleo tradicional da esquerda.”
Para o cientista político, o confronto deve continuar, mas em outro tom. “O candidato de oposição precisa continuar mostrando diferenças entre projetos. A questão é mudar a natureza desse contraste: menos ataque pessoal e mais comparação entre modelos de governo, prioridades e resultados.”
Tarcísio de Freitas e Fernando HaddadFoto: Pablo Jacob/Governo do Estado SP e Diogo Zacarias/Divulgação/ND Mais
Ele lembra ainda que Haddad venceu Tarcísio na cidade de São Paulo na eleição estadual anterior, o que ajuda a explicar a decisão de recuperar sua experiência como prefeito.
“O desafio de Haddad não é convencer o eleitor petista de que Tarcísio é seu adversário. Isso já está dado. O desafio é convencer o eleitor que não é petista de que Haddad pode ser uma alternativa. Ataque pode consolidar a polarização; biografia e proposta são o que podem ampliar uma candidatura.”
