Por muito tempo, a indústria automotiva mediu seu sucesso pela potência do motor, pela precisão da engenharia e pelo brilho da lataria. Mas há uma revolução silenciosa em curso, e ela não acontece sob o capô. Acontece na conversa entre o motorista e a máquina.
Foi essa a mensagem que Cristina Cestari, CIO da Volkswagen do Brasil, levou ao palco do VW Tech Day. Mais do que apresentar uma tecnologia, ela revelou uma mudança de alma na companhia.
O Problema que Ninguém Queria Ver
Antes de qualquer anúncio, Cestari fez algo raro em eventos de inovação: começou pelo presente, não pelo futuro. Expôs as dores reais do ecossistema — clientes exigindo simplicidade e confiança, concessionárias precisando de eficiência operacional e uma montadora em busca de inteligência digital. A transparência foi o ponto de partida.
Desse diagnóstico nasceu o OTTO, a primeira inteligência artificial generativa criada por uma montadora no Brasil, desenvolvida em parceria com a Accenture e a equipe VW Tech. Mas o fator decisivo não foi tecnológico. Foi humano.
Companhia: O Novo Valor
“O principal fator motivador não é tecnológico. É humano”, destacou Cestari. Dados recentes mostram que os usos de IA generativa mudaram radicalmente: companhia e terapia assumiram o primeiro lugar, superando até a produtividade.
O OTTO foi projetado para ser exatamente isso: um companheiro. Ativado pelo comando “Fala, Otto”, ele responde em linguagem natural, informa sobre manutenção, sugere rotas e localiza serviços próximos. Mas sua grande diferença está nos guardrails — filtros que o mantêm dentro do universo VW, garantindo que cada interação reforce a identidade da marca. Não é uma IA que sabe de tudo. É uma IA que sabe o que importa para a marca e para o cliente.
Além do Carro: A Experiência Contínua
O OTTO não vive apenas no painel. Ele acompanha o motorista no smartphone, acessa dados do veículo em tempo real e organiza-se em cinco camadas: veículo, companhia, conectividade, especialista e multi-idiomas. A experiência é fluida entre o carro e o celular.
A Grande Aposta: A Alma Digital
A frase mais marcante da apresentação foi: “Devices são perecíveis. IAs são perenes”. O carro será trocado, o smartphone também, mas a inteligência que conhece seus hábitos e preferências permanece. Essa “alma digital” é a verdadeira âncora de valor.
A lição do OTTO vai além do setor automotivo. Em um mercado saturado de produtos, a diferença está na presença que o cliente quer levar consigo. A Volkswagen entendeu que o futuro da mobilidade não se decide na fábrica, mas na relação diária entre pessoas e a tecnologia que as compreende.




