O Sítio Balbinot, de Guaraciaba, no Extremo-Oeste catarinense, mantém uma história de produção de queijos iniciada há mais de cinco décadas.Foto: Divulgação/ND Mais
O Sítio Balbinot, de Guaraciaba, no Extremo-Oeste catarinense, mantém uma história de produção de queijos iniciada há mais de cinco décadas no estado. A trajetória da família ganhou novo reconhecimento após a participação em um concurso nacional do setor, mas a origem do trabalho está na receita feita pela nona Irma ainda na cozinha de casa.
Em entrevista ao portal ND Mais, a produtora Aline Balbinot, contou como a produção familiar passou por mudanças, enfrentou o processo de regularização e chegou à terceira geração de queijeiras, mantendo a atividade no campo por meio da fabricação de leite e derivados.
Produção começou na década de 1970 com receita da nona Irma
A história do Sítio Balbinot começou na década de 1970, quando Irma e o marido chegaram à propriedade. O casal teve quatro filhos, entre eles o pai de Aline, que nasceu no sítio e cresceu acompanhando o trabalho com a produção de leite e queijo.
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Na época, o queijo era feito principalmente para o consumo da família e também era utilizado em trocas com vizinhos, amigos e parentes. Após a morte do marido, quando o filho ainda tinha 17 anos, Irma passou a vender os queijos produzidos em casa para ajudar a sustentar os filhos mais novos.
Anos depois, a tradição continuou com a mãe de Aline, que aprendeu com a sogra o modo de preparo do produto. Enquanto elas faziam os queijos, o pai de Aline era responsável pelas entregas e pela venda na cidade.
“Para mim, a lembrança mais antiga que eu tenho com o queijo é eu ao redor do fogão a lenha com a minha mãe e a minha nona mexendo ali, fazendo o queijo”, conta Aline.
Queijo da Nona Irma foi criado a partir da receita que atravessou gerações na família Balbinot.Foto: Montagem/ND Mais
Família levou seis anos para conseguir regularização da produção
Em 2010, os pais de Aline decidiram transformar a produção feita em casa em uma atividade formalizada. Para isso, buscaram capacitação, apoio técnico e recursos para construir uma estrutura que atendesse às exigências sanitárias.
O processo até a obtenção do selo de inspeção levou seis anos. Durante esse período, a família precisou manter os custos do investimento enquanto não podia comercializar os produtos da forma planejada.
“Foi muito difícil. (…) fomos proibidos de produzir até estar tudo certinho”, relata Aline.
Com a regularização, a forma de fabricação também mudou. O queijo que antes era feito com leite cru, em panela no fogão a lenha e maturado em porão, precisou ser adaptado para uma estrutura com equipamentos específicos, controle de temperatura e processos exigidos pela legislação.
A mudança alterou também a relação com os consumidores. Parte dos clientes que buscavam o queijo feito na cozinha de casa deixou de comprar o produto após a adaptação dos processos. A família passou, então, a desenvolver novos produtos.
Terceira geração assumiu produção e criou novos produtos para queijaria
Aline começou a participar da atividade familiar ainda jovem. Em 2013, ingressou no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) para estudar e auxiliar os pais na produção.
Em 2021, ela assumiu, junto com seu marido Uilian de Valle, a gestão da industrialização do leite. A propriedade passou a ter duas frentes de trabalho: a produção leiteira e a fabricação dos derivados.
No mesmo período, o Sítio Balbinot conquistou o Selo Arte, certificação que reconhece produtos artesanais e ampliou a possibilidade de comercialização para outras regiões.
Entre os produtos desenvolvidos pela família está o queijo da Nona Irma, criado a partir da receita que era preparada pela matriarca. O produto mantém características do modo de fazer tradicional, como o uso de leite cru, tecido ao redor da forma e maturação em prateleiras de madeira.
O queijo também foi um dos produtos reconhecidos na 9ª edição do Prêmio Queijo Brasil, realizado em Blumenau. Além dele, o Sítio Balbinot recebeu medalhas com o Doce de Leite Tia Bete e o Queijo Xodó.
Aline Balbinot e Uilian de Valle comandam o Sítio Balbinot, que mantém produção de leite e derivados em família.Foto: Montagem/ND Mais
Para Aline, o queijo da nona representa a continuidade da história iniciada pela família.
“Esse queijo é muito mais do que o reconhecimento de um produto. É uma história, uma trajetória”, afirma.
Rotina no sítio une produção de leite e fabricação de derivados
Atualmente, o trabalho no Sítio Balbinot começa por volta das 5h, com a ordenha das vacas. O leite produzido na propriedade segue para a queijaria, onde passa pelas etapas de fabricação dos produtos.
Segundo Aline, a produção busca manter as receitas aprendidas com a mãe e a nona, mas utiliza recursos atuais para garantir qualidade e segurança aos consumidores.
“A gente une a inovação com a tradição nesse momento, quando preserva as receitas e traz a inovação para facilitar o nosso trabalho”, explica.
A atividade também se tornou uma forma de permanência da família no campo. Aline e a irmã já construíram suas casas na propriedade, enquanto o irmão mais novo ainda decide os próximos passos.
Produção da queijaria começa com a ordenha das vacas e segue para a fabricação dos derivados na queijaria.Foto: Montagem/ND Mais
“Para os meus pais é um sonho realizado os filhos permanecerem no campo. A gente encontrou formas através do queijo de permanecer, de uma maneira saudável financeiramente e com qualidade de vida”, diz.
Ao olhar para a trajetória do Sítio Balbinot, Aline resume a história da família em duas palavras: persistência e orgulho. Para ela, além do produto final, existe uma cadeia de trabalho que envolve desde o cuidado com os animais até os processos necessários para levar um alimento seguro ao consumidor.
“Eu gostaria que as pessoas soubessem que por trás do queijo existe toda uma cadeia, todo um cuidado. A gente faz tudo com muito respeito, responsabilidade e carinho”, afirma.
