O inventor queniano Mtamu Kililo começou cultivando fungos na despensa e aquecendo pequenos blocos no forno da própria cozinha. O que nasceu como uma pesquisa sem pretensão comercial evoluiu para a MycoTile, empresa que utiliza micélio e fibras naturais para produzir painéis destinados ao isolamento de paredes, coberturas e ambientes internos.
A trajetória foi apresentada pela Associated Press em reportagem atualizada em 19 de outubro de 2025. A produção ocorre em instalações do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Industrial do Quênia, em Nairóbi, e utiliza aproximadamente 250 toneladas de resíduos agrícolas por ano para fabricar cerca de 3.000 m² de material por mês.
Inventor queniano começou a pesquisa dentro de casa
A ideia surgiu durante uma bolsa de pesquisa em Kigali, capital de Ruanda, onde Mtamu Kililo conheceu o cultivo de cogumelos em uma das maiores fazendas do setor na África Oriental. Ao observar os substratos usados no processo, ele percebeu que o material tinha aparência semelhante à de pequenos tijolos e poderia encontrar aplicação na construção civil.
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De volta ao Quênia, o inventor queniano passou a reproduzir o processo em escala doméstica. Os fungos eram cultivados na despensa e os primeiros blocos eram aquecidos no forno da cozinha, em uma fase que Kililo descreveu como puramente experimental e ainda distante de uma operação comercial.
Micélio funciona como ligação natural entre as fibras
O micélio é a estrutura formada por filamentos que atua como sistema radicular dos cogumelos. No processo desenvolvido pela MycoTile, ele cresce entre fibras e resíduos agrícolas previamente tratados, unindo o material até formar uma massa compacta.
Essa rede biológica funciona como uma espécie de aglutinante natural, permitindo fabricar painéis densos sem depender exclusivamente dos materiais convencionais utilizados em tijolos, argamassas e produtos de isolamento. Depois de formado, o conjunto passa por etapas de controle e secagem antes da utilização.
Resíduos agrícolas viram matéria-prima para a fábrica
A empresa recolhe resíduos em áreas produtoras de açúcar no oeste do Quênia. Esses materiais, que poderiam aumentar a pressão sobre sistemas de descarte ou se transformar em poluentes, passam por pasteurização antes de serem introduzidos no composto de micélio.
A MycoTile utiliza cerca de 250 toneladas de resíduos agrícolas anualmente. O aproveitamento cria uma nova finalidade para subprodutos rurais e reduz a dependência de matérias-primas convencionais na fabricação de componentes destinados à construção.
Produção chegou a 3.000 m² por mês
O projeto deixou de ser uma sequência de pequenos testes domésticos e avançou para uma operação capaz de fabricar aproximadamente 3.000 m² de painéis por mês. A escala permite atender aplicações em isolamento de paredes, coberturas e decoração interna.
O governo queniano disponibiliza à empresa instalações e equipamentos no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Industrial do Quênia. O acesso ao maquinário permitiu ampliar uma ideia iniciada em uma cozinha para uma produção organizada em escala industrial.
Painéis custam menos que materiais convencionais
Kililo afirma que os produtos de isolamento fabricados pela empresa custam aproximadamente dois terços do preço de materiais considerados padrão. A diferença pode ser relevante em Nairóbi, onde uma parcela expressiva da população vive de aluguel ou constrói a própria casa gradualmente.
O uso dos painéis pode reduzir em cerca de um terço o custo de uma construção feita com tijolos e argamassa, conforme a estimativa apresentada. A proposta não elimina todos os gastos de uma obra, mas reduz o preço de partes ligadas ao fechamento e ao isolamento da estrutura.
Moradora gastou US$ 208 nos painéis
A vendedora ambulante Jedidah Murugi utilizou materiais produzidos com micélio em uma casa de 15 m². Ela gastou cerca de 26.880 xelins quenianos, equivalentes a US$ 208, na compra dos painéis empregados na unidade habitacional.
Murugi afirmou não perceber grande diferença de qualidade em relação a casas feitas com tijolos. Segundo a moradora, o interior não fica frio durante a noite nem excessivamente quente ao longo do dia, indicando que os painéis cumprem uma função de isolamento térmico.
Isolamento reduz variações de temperatura
Os painéis podem ser utilizados em paredes e telhados para dificultar a transferência de calor entre o ambiente interno e o exterior. Esse efeito ajuda a manter condições mais estáveis durante o dia e a noite, reduzindo a influência direta das variações externas.
A experiência relatada por Murugi reforça essa característica, embora a fonte não apresente medições laboratoriais de temperatura, condutividade térmica ou desempenho comparativo. O conforto descrito pela moradora é uma observação prática, e não um ensaio técnico detalhado.
Crise habitacional amplia procura por alternativas
Nairóbi enfrenta um déficit habitacional estimado em pelo menos 2 milhões de unidades, em uma metrópole com mais de 5 milhões de habitantes. Muitas pessoas vivem em assentamentos informais vulneráveis a incêndios, falta de saneamento e precariedade estrutural.
Grande parte dos quenianos permanece como inquilina, enquanto proprietários costumam construir as casas aos poucos, durante vários anos. Materiais com preço menor podem facilitar etapas da obra e reduzir o período em que famílias permanecem em construções incompletas.
Construção convencional pode custar até US$ 2 mil
Uma unidade simples de um quarto em Nairóbi, construída com tijolos, madeira e chapas metálicas, pode custar até 150 mil xelins quenianos, cerca de US$ 1 mil. Dependendo do padrão dos acabamentos, esse valor pode dobrar.
A comparação ajuda a dimensionar o impacto potencial de uma solução que reduz parte dos gastos. Ainda assim, os US$ 208 pagos por Murugi correspondem aos painéis de sua casa de 15 m², e não ao custo total da construção pronta.
Material é biodegradável e tem baixa pegada de carbono
Kililo afirma que os painéis à base de fungos são biodegradáveis e não prejudicam o meio ambiente. O uso de matérias-primas biogênicas também pode reduzir a pegada de carbono em comparação com componentes convencionais de alta intensidade energética.
O arquiteto Nickson Otieno destacou que a construção civil está entre as principais fontes de emissões. Substituir parte dos materiais tradicionais por componentes de origem biológica pode diminuir o carbono incorporado nos edifícios, desde que produção, transporte e descarte também sejam considerados.
Quênia busca reduzir emissões da construção
As autoridades quenianas começaram a desenvolver um plano nacional de descarbonização da construção civil, com atenção especial para inovações criadas dentro do próprio país. A cessão de instalações à MycoTile integra esse movimento de apoio a soluções locais.
A preocupação ocorre porque o crescimento urbano pode consolidar décadas de obras com emissões elevadas. A adoção de materiais alternativos durante a expansão das cidades pode evitar que novos bairros repitam integralmente os métodos mais intensivos em carbono.
O uso de micélio na construção não começou no Quênia. Em maio de 2024, o grupo MycoHAB concluiu na Namíbia uma casa feita com o material, utilizando tecnologia originalmente desenvolvida para a NASA.
Na Holanda, outro inventor combina micélio e fibra de cânhamo para produzir sarcófagos biodegradáveis. Esses exemplos mostram que a estrutura dos fungos pode ser adaptada para diferentes produtos, desde componentes habitacionais até objetos destinados ao sepultamento.
Painéis ainda precisam provar desempenho em larga escala
A expansão da produção demonstra capacidade comercial, mas a fonte não apresenta informações detalhadas sobre durabilidade, resistência ao fogo, comportamento diante da umidade ou vida útil dos painéis em diferentes condições climáticas.
Esses fatores são decisivos para a utilização em grande escala. Materiais destinados a casas precisam manter desempenho durante anos e atender normas técnicas de segurança, especialmente quando aplicados em paredes e coberturas.
Blocos de cozinha viraram solução habitacional
O percurso de Kililo mostra como uma observação feita em uma fazenda de cogumelos evoluiu para uma empresa que processa centenas de toneladas de resíduos e fornece material para moradias. A produção doméstica serviu como etapa inicial para testar se o micélio poderia unir fibras e assumir uma função construtiva.
Hoje, o inventor queniano busca oferecer painéis mais baratos, biodegradáveis e termicamente eficientes para um mercado marcado pelo déficit de moradias. A experiência de Jedidah Murugi mostra a aplicação concreta da ideia em uma casa de 15 m², enquanto a fábrica indica que o projeto já ultrapassou a fase dos experimentos no forno da cozinha.
Você acredita que painéis feitos com fungos e resíduos agrícolas poderiam ser utilizados em programas habitacionais de outros países? Deixe sua opinião nos comentários.

