Navio fabricado na China cruza o Atlântico e descarrega quase 10 mil toneladas de fertilizante em Porto Alegre, marcando a volta dos gigantes ao Guaíba

alisson ficher
Navio fabricado na China cruza o Atlântico e descarrega quase 10 mil toneladas de fertilizante em Porto Alegre, marcando a volta dos gigantes ao Guaíba

Quase 10 mil toneladas de cloreto de potássio chegaram a Porto Alegre em uma operação internacional que reuniu um navio fabricado na China, rota iniciada na Rússia, trabalhadores portuários e a retomada da circulação de grandes embarcações pelas hidrovias do Rio Grande do Sul.

Em 18 de abril de 2026, o graneleiro LMZ Phoebe atracou no Cais Navegantes, em Porto Alegre, transportando cerca de 9,9 mil toneladas de cloreto de potássio, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes destinados à agricultura.

Com quase 190 metros de comprimento, a embarcação permaneceu quatro dias na capital gaúcha e deixou o porto em 21 de abril, depois que o conteúdo armazenado em cinco porões foi retirado e encaminhado a empresas da Região Metropolitana.

Construído na China, registrado sob bandeira das Ilhas Marshall e pertencente a uma companhia grega, o LMZ Phoebe era comandado pelo capitão russo Denis Selivanov, numa operação que conectou trabalhadores, empresas e regras marítimas de diferentes países.

Rota marítima ligou Rússia, Santa Catarina e Porto Alegre

Partindo de São Petersburgo, na Rússia, o navio atravessou o oceano Atlântico e fez escala em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina, antes de seguir pelo trecho final da viagem até o porto de Porto Alegre.

Ao alcançar o Guaíba, a rota internacional deu lugar a uma operação terrestre de grande porte, pois o volume desembarcado correspondia à capacidade aproximada de 550 caminhões, considerando veículos preparados para transportar cerca de 18 toneladas cada um.

Essa concentração permitiu que o cloreto de potássio cruzasse o oceano em uma única embarcação, em vez de ser dividido entre centenas de veículos, passando ao transporte rodoviário somente depois de chegar ao terminal portuário da capital gaúcha.

Na etapa seguinte, caminhões e carretas levaram o insumo para indústrias da Região Metropolitana, onde matérias-primas são recebidas, misturadas e transformadas em fertilizantes distribuídos a áreas agrícolas do Norte, do Oeste e do Centro do Rio Grande do Sul.

Descarga utilizou equipamentos do próprio graneleiro

Navio chinês descarrega quase 10 mil toneladas de fertilizante em Porto Alegre e marca a retomada de grandes embarcações no Guaíba.

Sem os guindastes instalados no cais, que estavam fora de operação, a descarga precisou utilizar os equipamentos do próprio LMZ Phoebe, conduzidos por profissionais terceirizados responsáveis por retirar o material a granel dos compartimentos internos da embarcação.

Depois da atracação, operadores portuários subiram a bordo para solicitar ao comandante o plano de carga e cumprir os procedimentos prévios, enquanto caminhões e carretas eram posicionados sob uma estrutura semelhante a um grande funil.

Dentro dos cinco porões, uma retroescavadeira reorganizou os montes de cloreto de potássio para ampliar o alcance dos guindastes, que transferiram o produto diretamente aos veículos preparados para seguir até os destinatários definidos na operação.

Encerrado o carregamento, cada caminhão passou pela balança, teve o peso registrado e recebeu a documentação necessária antes de deixar o cais, etapa que integrou o transporte marítimo à distribuição rodoviária do insumo no território gaúcho.

Ao todo, cerca de 50 profissionais participaram diretamente do trabalho, entre estivadores, caminhoneiros, porteiros, operadores de equipamentos, coordenadores, guardas e técnicos de segurança, enquanto a tripulação permaneceu responsável pelos sistemas e equipamentos próprios do navio.

Para além da equipe presente no cais, a movimentação mobilizou agentes marítimos, rebocadores, transportadores, terminais, prestadores de serviços e empresas receptoras, mostrando que a passagem de um graneleiro exige uma cadeia operacional mais ampla e integrada.

Grandes navios retomaram operações nas hidrovias gaúchas

Quase dois anos após a enchente de 2024, a chegada do LMZ Phoebe simbolizou a retomada de operações afetadas pelo assoreamento dos canais, problema que exigiu planejamento, licitações e intervenções nos trechos mais críticos das hidrovias estaduais.

Conforme informou Sandro Boka, diretor de Relações Institucionais da Portos RS ouvido pela GZH, navios com mais de 150 metros haviam recebido autorização para retornar às hidrovias cerca de três meses antes da passagem do graneleiro pela capital.

Antes dele, o Equinox Eagle, registrado nas Ilhas Cayman, havia sido o primeiro navio desse porte a voltar ao Cais Navegantes, onde permaneceu entre 26 e 29 de janeiro de 2026 e abriu uma nova sequência de atracações.

Na sequência, embarcações registradas em Hong Kong, Malta, Libéria e Ilhas Marshall também chegaram a Porto Alegre, recolocando o terminal na rota de operações com grandes navios voltados ao transporte de insumos agrícolas e industriais.

Cais Navegantes conecta transporte marítimo e indústria

Além dos componentes usados na fabricação de fertilizantes, o Cais Navegantes recebe cereais como a cevada destinada à produção de malte, enquanto algumas cargas seguem diretamente às indústrias e outras permanecem armazenadas temporariamente nas estruturas portuárias.

Vista da região próxima ao Guaíba, a presença do LMZ Phoebe destacou a retomada de operações dependentes de canais navegáveis, equipamentos embarcados e integração eficiente entre transporte marítimo, estruturas portuárias e circulação de cargas pelas rodovias gaúchas.

Com a partida do navio, as 9,9 mil toneladas descarregadas iniciaram uma nova etapa por terra, distribuídas entre caminhões e carretas encarregados de levar o insumo às empresas do polo de fertilizantes instalado na Região Metropolitana de Porto Alegre.

Afinal, quantas pessoas imaginam que um insumo destinado às lavouras gaúchas pode sair de um porto russo, atravessar o Atlântico em um navio construído na China e concluir a viagem mobilizando centenas de caminhões no Rio Grande do Sul?

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