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Lázaro Roberto aprendeu que fotografar também era uma forma de tomar posição diante do mundo.
Nascido na periferia de Salvador, o fotógrafo passou a registrar a vida negra na Bahia a partir de um olhar de dentro, construído pela convivência com trabalhadores, movimentos sociais e manifestações culturais.
Para fotografar os feirantes da Feira de São Joaquim, por exemplo, precisou conquistar sua confiança e mostrar que não buscava apenas imagens, mas histórias e nomes.
Em 1990, ao lado de Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, fundou o Zumví, coletivo que se tornou um dos mais importantes acervos fotográficos do Brasil.
A exposição “Zumví Arquivo Afro Fotográfico”, em cartaz no Instituto Moreira Salles, reúne cerca de 400 imagens de um arquivo que guarda 50 mil registros produzidos ao longo de 35 anos.
Definido pelos próprios criadores como um “quilombo visual”, o acervo preserva uma memória negra construída por quem viveu e testemunhou essa história.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Enquanto conversava com os curadores Hélio Menezes e Ariana Nuala, Lázaro Roberto interrompeu uma entrevista para atender um jovem que havia perdido o pai e buscava por uma fotografia dele. O fotógrafo mencionou o nome, foi ao arquivo e voltou com o retrato de um trabalhador da Feira de São Joaquim, em Salvador.
“Quando comecei a fotografar os trabalhadores, perguntava se eu iria vender aquelas fotos para os brancos”, conta Lázaro Roberto ao NeoFeed. Para conquistar a confiança dos feirantes, passou um ano frequentando a Feira de São Joaquim, mudou-se do sindicato e, aos domingos, dividia cervejas com eles. “Acho que, com o tempo, entendiam o que a gente estava fazendo”, afirma.
O que Lázaro, 68 anos, construiu com suas fotos era um outro modo de ver. Em vez do olhar passageiro e exotizante de tantos fotógrafos que chegavam à feira para produzir um ensaio e nunca mais voltavam, ele registrava pessoas com quem dividia vínculos e pertencimento.
Essas imagens integraram a exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico, em cartaz no Instituto Moreira Salles até 23 de agosto. A mostra apresenta cerca de 400 fotografias do arquivo fundado em Salvador, em 1990, por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro.
O Zumví é um dos mais importantes acervos fotográficos do país e uma peça-chave para compreender tanto a história da fotografia brasileira quanto a dos movimentos negros. Seu nome combina a palavra ” zoom “, aportuguesada, à ideia de testemunho — “vi”.
O arquivo nasceu do compromisso de documentar a vida negra na Bahia a partir do olhar de quem a vivia, em uma época em que pessoas negras raramente produziam e preservavam suas próprias imagens. Fotografar, para seus fundadores, era uma forma de aproximar-se para testemunhar.
No início dos anos 1990, Lázaro ingressou em um curso de fotografia do Senac. Foi ali que conheceu Aldemar e Raimundo, com quem compartilhava inquietações semelhantes. “Eu senti necessidade de criar um grupo para falar sobre a minha fotografia. Até então, não conhecia os fotógrafos cuja produção dialogasse com a minha”, conta Lázaro.
A força da imagem
Filho da lavadeira Valdelice e do estivador José Ferreira dos Santos, o fotógrafo cresceu na Fazenda Grande do Retiro, na zona norte de Salvador. A arte entrou em sua vida pela porta menos previsível: a da igreja.
Um padre italiano chamado Paulo deu abertura no espaço religioso para que os jovens montassem um grupo de teatro e realizassem eventos de arte e formação política. “Padre Paulo chegou lá revolucionando”, lembra.
Foi aí que Lázaro descobriu que a arte poderia ser uma poderosa ferramenta de conscientização política e racial. Em um dos festivais promovidos pela igreja, viu um ensaio documental do fotógrafo Antonio Olavo e compreendeu que a fotografia era também uma maneira de posicionar-se diante do mundo.

Da série Cabeça feita, Salvador, BA, 2007 (Foto: Lázaro Roberto)

Protesto no centenário da Abolição da escravidão, Salvador, BA, 1988 (Foto: Rogério Santos)

“Quando eu comecei a fotografar, ninguém me enxergava, ninguém me convidava para nada”, lembra (Foto: Tom França)

A mostra no IMS presenta cerca de 400 fotografias (Foto: IMS/Divulgação)
Decidido a aprender, buscou a orientação de Jeremias, um dos poucos membros do grupo que possuía uma câmera profissional.
Naquele período, trabalhava na gráfica da igreja, onde imprimia panfletos, cartazes e faixas para movimentos sociais. Aos poucos, economizou dinheiro para comprar sua primeira câmera, uma Minolta de lente fixa.
Terminado o expediente, deixou as máquinas de impressão e seguiu para as ruas, registrando as mesmas passeatas, assembleias e manifestações para as quais havia acabado de imprimir o material de divulgação.
“Não tinha internet. Na gráfica, eu sabia dos movimentos que iam acontecer das lavadeiras, dos sindicatos, dos movimentos de bairro. Normalmente as manifestações eram no fim da tarde. Eu trabalhei e depois ia fotografar”, lembra.
Um evento, três pontos de vista
Ao reunirem seus acervos, Aldemir, Lázaro e Raimundo perceberam que, muitas vezes, haviam registrado os mesmos acontecimentos sem jamais terem sido encontrados. A visita de Nelson Mandela a Salvador, em 1991, por exemplo, havia sido fotografada pelos três, cada um a partir de um ângulo diferente.
Essas fotos estão apresentadas no primeiro núcleo da exposição e mostram a íntima ligação do Zumví com os movimentos negros brasileiros. São imagens produzidas por fotógrafos que também eram militantes, educadores e agentes culturais, presentes em momentos como o protesto do Centenário da Abolição, em 1988, e as comemorações dos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995.
Outro assunto de interesse dos fotógrafos eram os grupos de carnaval dedicados à tradição afro, como Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy. Ao percorrer bairros periféricos, festas populares e mobilizações políticas, Lázaro passou a enxergar a cidade de outra maneira.
“Foi quando percebi Salvador como uma cidade negra. Antes disso, confesso que não enxergava essa dimensão. É aquela coisa: você vê, mas não percebe. Quando eu tomei essa consciência, comecei a documentar essa presença”, conta.
A urgência do coletivo não vinha apenas das ruas. Também nas vitrines e nos cartões de Dia das Mães, Dia dos Pais ou Dia dos Namorados, Lázaro via uma população negra sistematicamente desligada. “Normalmente, esses cartões só trazem pessoas brancas”, diz. “Eu nunca fui de fazer discurso. Como militante do movimento negro, sempre procurei responder com a minha fotografia.”
Sua resposta foi produzir outras imagens. Em ensaios protagonizados por pessoas negras em cenas de afeto, dignidade e orgulho, imprimia e colava artesanalmente cartões comemorativos e capas de caderno. “Foi um jeito que encontrei de equilíbrio as injustiças raciais por meio das imagens.” Mostrava a nossa preocupação com isso”, explica.
O trio esteve unido por cinco anos. Quando Aldemar e Raimundo deixaram a fotografia, confiaram seu acervo aos cuidados de Lázaro. Hoje, o Zumví se define como um quilombo visual, reunindo o trabalho de sete fotógrafos negros e cerca de 50 mil imagens produzidas ao longo de 35 anos.
“Quando eu comecei a fotografar, ninguém me enxergava, ninguém me convidava para nada”, lembra. “Então eu disse para mim mesmo: ‘Vou fotografar hoje para o amanhã’.” O amanhã chegou.
