[Atenção: este texto tem spoilers sobre o filme A Odisséia]
No começo de junho, eu fiz duas previsões para meus amigos mais próximos: a Inglaterra seria a campeã da Copa do Mundo e A Odisséia seria o melhor filme da carreira de Christopher Nolan. Nenhuma delas era baseada em absolutamente nada e foram feitas como uma espécie de brincadeira – mas é bem possível que eu tenha acertado a segunda.
A verdade é que a experiência que eu tive com o filme foi uma das mais incríveis da minha vida indo aos cinemas, faz vários dias que eu fico pensando em como o filme trabalhou tão bem não apenas diversos temas que fazem parte da obra original (o retorno para casa, o embate do homem contra os deuses e as forças da natureza) mas também temas muito mais contemporâneos – mas numa leitura que faz todo sentido com o texto original. E eu estou há dias tentando digerir isso, e falhando em transformar essa sensação em palavras.
Acho que minha maior dificuldade em traduzir meus sentimentos em palavras é justamente porque A Odisséia de Nolan é de uma complexidade temática que eu não esperava. O filme consegue ser, ao mesmo tempo, extremamente fiel ao texto original de “Homero” (quem manja de literatura vai entender o porquê das aspas) e uma reinterpretação que transforma uma história de mais de 4000 anos em uma narrativa nova e surpreende mesmo quem já a conhece. E é nessa reinterpretação que está o grande trunfo de Nolan para a história: transformar uma narrativa clássica em uma trama pós-moderna.
Para entender melhor o que eu quero dizer, vamos relembrar daquele meme antigo do “conflito na literatura”:
(Imagem: Reddit)
Como podemos esperar, a narrativa original da Odisséia tem no seu âmago os três conflitos mais comuns da literatura clássica: o “homem contra Deus” (Odisseu vs Poseidon), o “homem conta a natureza” (Odisseu contra o oceano que o impede de voltar para casa) e o “homem contra o homem” (Odisseu contra os pretendentes ao trono). Eu falo “como podemos esperar” porque a Odisséia de “Homero” basicamente inventou todo o conceito de literatura clássica. E todos esses temas continuam existindo no filme.
Mas o diretor traz um toque de genialidade e surpresa justamente na forma não apenas como trabalha esses temas, mas os interpreta de uma maneira que cria novos conflitos – e esses novos conflitos transformam uma história de 4000 anos atrás em uma narrativa pós-moderna.
O “homem contra tecnologia” fica muito claro na forma como o filme reinterpreta a questão do Cavalo de Tróia. Na trama original, o Cavalo é tratado como o “grande trunfo” da carreira de Odisseu, o momento de esperteza que venceu a guerra para os gregos. Mas em A Odisséia, Odisseu é Oppenheimer e o Cavalo a sua bomba atômica – algo que é ao mesmo tempo seu maior feito e o seu maior arrependimento. E, enquanto o cavalo é cantado pelos bardos como uma decisão heróica que finalizou uma Guerra que já durava mais de dez anos, Odisseu é obrigado a viver com o trauma das imagens de destruição que sua invenção causou, e como nada seria igual dali pra frente.
Assim como a bomba atômica, o Cavalo de Tróia foi o “pecado original” que mudaria o mundo. A partir daquele momento, a Lei de Zeus – que dita que anfitriões e convidados possuem um pacto de não-agressão implícito entre si – nunca mais seria respeitada. E este abuso de confiança que causou não apenas o fim de uma guerra, mas a destruição de todo um povo, levaria o mundo à ruína – afinal, como esperar o avanço de uma sociedade onde ninguém mais confia em ninguém? A Odisséia também é bastante corajosa ao deixar claro uma faceta que se perde em diversas recontagens da história: o fim da Guerra de Tróia não foi uma vitória qualquer, mas um genocídio de toda uma população com cultura e costumes próprios.
E esta visão de Odisseu sobre si mesmo – e sobre o papel dele na Guerra – leva ao conflito do “homem contra o autor”. Principalmente no terceiro ato, Odisseu toma uma decisão que é de um “heroísmo egoísta”, que é a de não querer deixar ao mundo sua própria versão dos fatos. Ao afirmar que prefere deixar que os poetas recontem os eventos da Guerra, ele confirma que é sabe que a forma como os eventos estão sendo contados são baseados em mentira (como a questão do sequestro de Helena, que é a discussão literária mais antiga sobre se aconteceu ou não, mas que na trama de Nolan não é uma questão de honra ou vingança, mas apenas a desculpa que Agamemnon precisava para atacar Tróia e garantir o controle das rotas navais, dando a entender que a Guerra de Tróia iria acontecer de uma forma ou de outra por conta da ambição do rei grego), mas que talvez seja melhor para as próximas gerações não saber sobre os traumas reais do conflito. Deixe que os poetas cantem sobre o cerco de Tróia e a viagem de volta para casa de Odisseu como um triunfo humano, pois revelar a verdade seria colocar nas costas do antigo rei de Ítaca uma responsabilidade por crimes contra a humanidade que ele não quer assumir.
Agora um dos aspectos mais interessantes do filme está justamente no conflito “homem contra a realidade”, que já fica presente logo nas primeiras palavras mostradas em tela, quando o filme é aberto por um texto que fala sobre “um mundo de magia aparente”. A Grécia de A Odisséia é um mundo onde a magia existe – afinal, continuamos tendo aqui ciclopes que cuidam de ovelhas e produzem queijo, bruxas que transformam homens em porcos, sereias de canto mortal e plantas que fazem quem as come esquecer de todo o passado. E também há deuses, claro. Mas será que tudo isto é tão real quanto imaginamos?
No filme de Nolan, o conflito clássico de “homem contra os deuses” se entrelaça com o pós-moderno do “homem contra a realidade”. Ao mesmo tempo que os deuses são uma presença constante na vida dos personagens, fica a dúvida se eles são mesmo entidades que manipulam as vidas dos homens de um plano superior, ou se são apenas uma explicação para justificar sentimentos de culpa, arrependimento, e a recusa em aceitar de que o destino que espera os homens é apenas uma consequência de seus próprios atos?
A cena da destruição do Templo de Atena em Tróia é uma das mais emblemáticas na exposição desse conflito. Nela, vemos Odisseu olhando para dois soldados gregos segurando a de joelhos uma sacerdotisa do templo – interpretada por Zendaya, a mesma atriz que aparece sempre ao lado de Odisseu como a deusa Atena lhe mostrando o caminho – e, logo depois, a cabeça de uma estátua da deusa rolando pelas escadarias do templo. A cena é genial porque é dúbia: seria a imagem de Atena que acompanhou Odisseu em toda a jornada do guerreiro para casa um reflexo do trauma e culpa que ele sentiu por ser quem proporcionou os meios para o genocídio de Tróia, e por isso a “deusa” tem o mesmo rosto da sacerdotisa inocente que ele viu ser assassinada na sua frente; ou seriam os deuses reais, e a imagem da sacerdotisa sendo prostrada no chão pelos soldados gregos era uma forma que Odisseus, um guerreiro com uma grande ligação com a deusa Atena, enxergou o ato de profanação do templo pelos soldados que o acompanhavam? A interpretação é dúbia porque a própria realidade de toda a narrativa de A Odisséia é dúbia.
Enfim, A Odisséia é uma verdadeira obra-prima não apenas na direção (algo que qualquer pessoa já esperava de um filme do Nolan), mas também de roteiro (algo que acho que ninguém esperava de um filme escrito pelo próprio diretor). É, sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes do diretor (e, pessoalmente, o meu preferido dele) e provavelmente vai ganhar uma penca de Oscars na cerimônia do ano que vem. Mas o grande sucesso desse filme é algo que acho que ninguém esperava: a transformação da história mais antiga do cânone literário ocidental em uma adaptação que é, ao mesmo tempo, extremamente fiel mas que também conversa com algumas das nossas ansiedades mais contemporâneas.
*A Odisséia está em cartaz nos cinemas.
Veja nossa campanha de financiamento coletivo, nosso crowdfunding.
Conheça os canais do Drops de Jogos no YouTube, no Facebook, na Twitch, no TikTok e no Instagram.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.