A corrida pela inteligência artificial não acontece apenas nos algoritmos, chips ou modelos cada vez mais poderosos. Por trás de ferramentas como assistentes generativos e agentes de IA existe uma infraestrutura física que consome quantidades crescentes de eletricidade; e garantir energia suficiente começa a fazer parte da estratégia das maiores empresas de tecnologia do mundo.
A Amazon confirmou nesta sexta-feira, 7, que está apoiando financeiramente a construção de uma enorme usina privada de geração de energia a gás no Texas, nos Estados Unidos, segundo a agência de notícia AFP.
O empreendimento será responsável por fornecer eletricidade para grandes centros de dados e não estará inicialmente conectado à rede elétrica.
O projeto, chamado GW Ranch, terá 35 turbinas e capacidade instalada de 7,65 gigawatts (GW), segundo informações da AFP. A instalação ficará no condado de Pecos, próximo à fronteira dos Estados Unidos com o México.
Para Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação, o tamanho do empreendimento ajuda a dimensionar quanto a expansão da IA começa a exigir investimentos que vão muito além da tecnologia propriamente dita.
“À grosso modo, essa capacidade é metade de Itaipu. Lembrando que Itaipu abastece uma boa parte do país. Podemos dizer que o que a Amazon está fazendo é uma meia Itaipu”, afirma Igreja.
Na avaliação do especialista, uma instalação desse porte teria capacidade suficiente para atender algo entre 20 milhões e 30 milhões de domicílios, a depender do consumo considerado.
“Estamos falando da capacidade instalada de um Estado”, diz o especialista
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Energia virou a base da corrida pela IA
O movimento da Amazon expõe um dos maiores desafios da nova economia da inteligência artificial: antes de ampliar a capacidade de processamento, as empresas precisam garantir eletricidade para manter milhares de chips funcionando dentro dos centros de dados.
Igreja usa como referência o chamado “five-layer cake”, conceito frequentemente apresentado por Jensen Huang, CEO da Nvidia, para explicar as diferentes camadas da infraestrutura da IA.
O especialista explica que na base está a energia. Depois aparecem chips, centros de dados, modelos de inteligência artificial e, finalmente, as aplicações utilizadas pelos consumidores e pelas empresas.
“Se houver gargalo energético, não adianta ter um hiper data center monstruoso montado e não conseguir operacionalizá-lo por falta de energia”, afirma Igreja.
É por isso que o avanço da inteligência artificial está mudando também o perfil de investimento das gigantes de tecnologia. Segundo Igreja, as empresas de tecnologia já estão precisando se transformar também em empresas de infraestrutura energética para continuar crescendo em IA.
“Nós já estamos nesse ponto. Basta ver o tamanho dos investimentos em CapEx dessas empresas. Elas se tornaram empresas de infraestrutura”, diz o especialista.
Segundo Igreja, quando se fala em infraestrutura, a associação tradicional costuma ser feita com estradas, aeroportos ou pontes. Na economia da inteligência artificial, entretanto, uma nova infraestrutura ganhou protagonismo.
“A infraestrutura da era da IA é data center.”
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Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação: “As empresas de tecnologia se tornaram empresas de infraestrutura” (Arthur Igreja/Divulgação)
Por que a Amazon quer produzir a própria energia?
A decisão de abastecer os centros de dados com geração de energia no próprio local também tenta contornar outro problema: a dificuldade de conectar rapidamente grandes projetos à rede elétrica.
O novo campus da Amazon foi planejado no condado de Pecos para operar inicialmente com geração própria, sem elevar as contas de eletricidade das famílias do Texas.
“Nosso novo campus opera com uma nova geração de energia no local que não elevará os custos de eletricidade para as famílias do Texas e foi projetado para migrar para um serviço conectado à rede assim que os prazos de interconexão permitirem”, afirmou um porta-voz da Amazon à AFP.
A estratégia mostra como a disponibilidade de energia está se tornando uma variável tão importante quanto o acesso a chips na expansão da inteligência artificial.
Para Igreja, o movimento não está restrito à Amazon. Outras gigantes da tecnologia já procuram alternativas para garantir eletricidade para seus centros de dados.
“Isso já é tendência. A Microsoft já está investindo e investigando energia nuclear descentralizada, e o mesmo acontece com a Alphabet. Não é uma novidade. A novidade é o anúncio, o compromisso e o tamanho do número”, afirma.
O custo ambiental da infraestrutura da IA
A escala do projeto também reacende uma discussão que acompanha a expansão dos centros de dados: o impacto ambiental da inteligência artificial.
As licenças apresentadas para o GW Ranch, segundo a AFP, indicam que a instalação poderá emitir mais de 30 milhões de toneladas métricas de gases de efeito estufa por ano. Nesse patamar, poderia se tornar a maior fonte individual dessas emissões nos Estados Unidos.
Embora usinas movidas a gás sejam menos poluentes do que as movidas a carvão, continuam emitindo gases responsáveis pelo aquecimento global. A produção e o transporte de gás natural também podem provocar vazamentos de metano, gás de efeito estufa particularmente potente.
Além disso, instalações desse tipo podem emitir poluentes atmosféricos e material particulado fino, associados a riscos à saúde.
O cenário coloca as empresas de tecnologia diante de uma equação cada vez mais complexa: ampliar rapidamente a infraestrutura necessária para sustentar a IA sem transformar a demanda por capacidade computacional em uma expansão proporcional das emissões.
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E o Brasil nessa corrida?
A necessidade crescente de energia também pode abrir espaço para países que consigam combinar disponibilidade elétrica, infraestrutura de transmissão e uma matriz com menor intensidade de carbono.
Para Igreja, o Brasil poderia ocupar uma posição estratégica nessa disputa, mas ainda enfrenta obstáculos.
“O Brasil tem gargalos importantes, por exemplo, na questão de transmissão. Mas, se começar a ter uma agenda mais firme em relação ao tipo de energia e às emissões de CO₂, pode ficar em uma posição privilegiada para receber esse tipo de investimento”, afirma.
A disputa pela liderança em inteligência artificial, portanto, começa cada vez mais longe da tela do computador. Antes de modelos, agentes e aplicações, existe uma questão básica a ser resolvida: de onde virá a energia necessária para manter toda essa infraestrutura funcionando?
Veja entrevista exclusiva de Juliana Sztrajtman, CEO da Amazon Brasil, ao programa “De frente com CEO”, da EXAME:
