Áustria e Itália estão furando os Alpes para abrir um túnel ferroviário de 55 quilômetros que vai destronar o suíço Gotthard e se tornar a mais longa travessia subterrânea de trem do planeta

jefferson augusto
Áustria e Itália estão furando os Alpes para abrir um túnel ferroviário de 55 quilômetros que vai destronar o suíço Gotthard e se tornar a mais longa travessia subterrânea de trem do planeta

Sob uma das passagens de montanha mais movimentadas da Europa, uma obra de bilhões de euros avança na rocha para tirar caminhões da estrada e ligar o norte ao sul do continente em linha quase reta.

No coração dos Alpes, entre a Áustria e a Itália, tuneladoras gigantes e cargas de dinamite estão abrindo caminho por dentro da montanha. O objetivo é montar um corredor de trem que passa por baixo dos picos em vez de subir por eles.

Quando ficar pronto, o Túnel de Base do Brenner terá 55 quilômetros de extensão e vai roubar do suíço Gotthard o posto de mais longa travessia ferroviária subterrânea do mundo.

Um túnel plano por dentro de uma cordilheira

A expressão túnel de base descreve bem a ideia. Em vez de acompanhar a subida e a descida da serra, o traçado corta a montanha pela parte de baixo, mantendo o trilho quase plano de uma ponta a outra.

Isso muda tudo para um trem de carga. Rampas suaves permitem composições mais longas e pesadas, puxadas por menos locomotivas, com menor gasto de energia e menor risco.

O Brenner liga a região de Innsbruck, na Áustria, a Fortezza, no norte da Itália, atravessando a fronteira inteiramente por baixo da rocha.

55 quilômetros que viram 64 e superam o Gotthard

O túnel principal terá 55 quilômetros. Somado a uma ligação ferroviária subterrânea já existente do lado de Innsbruck, o percurso contínuo por baixo da terra chega a cerca de 64 quilômetros.

É esse número que garante o recorde. O atual detentor do título, o Túnel de Base de Gotthard, na Suíça, tem 57 quilômetros e reina como o mais longo desde que foi inaugurado.

O Brenner passa à frente e se junta a um seleto grupo de megaobras que preferem atravessar cadeias de montanhas por dentro em vez de contorná-las por cima.

Duas galerias e um túnel de exploração embaixo

A obra não é um buraco único. São dois tubos principais paralelos, um para cada sentido de tráfego, ligados entre si por passagens transversais a intervalos regulares, usadas para segurança e resgate.

Abaixo deles corre ainda um túnel de exploração, escavado à frente das galerias principais. Ele serve para estudar a rocha antes da escavação definitiva e, depois, para drenagem e manutenção.

Essa arquitetura em camadas é o que permite tocar a obra com mais previsibilidade, reduzindo surpresas geológicas ao longo de dezenas de quilômetros.

Tuneladora e dinamite contra a rocha alpina

A escavação combina dois métodos. Em boa parte do trajeto entram as tuneladoras gigantes que avançam mordendo a rocha e revestindo o túnel à medida que andam.

Nos trechos de geologia mais complicada, a equipe recorre ao método de perfurar e detonar, abrindo a rocha em ciclos controlados de explosivos e remoção de entulho.

Por cima de tudo isso, o maciço alpino chega a somar cerca de 1.700 metros de rocha entre o teto do túnel e o topo das montanhas, uma das razões pelas quais a obra é tão lenta e cara.

O alvo real é tirar caminhão da estrada

O Brenner não é uma obra de vaidade. A passagem que leva seu nome é uma das rotas de travessia dos Alpes mais usadas pelo transporte rodoviário de carga, com filas de caminhões e forte impacto ambiental sobre os vales.

A ideia é transferir boa parte desse fluxo para o trilho. Um corredor plano e rápido por baixo da montanha torna o trem competitivo contra o caminhão, o que promete menos poluição e menos congestionamento nas estradas de encosta.

Para o passageiro, o efeito aparece no relógio: a viagem de trem entre o sul da Alemanha e o norte da Itália deve encurtar de forma sensível quando a linha entrar em operação.

Uma obra de bilhões que só termina no fim da década

Nada disso é rápido nem barato. O projeto envolve investimento na casa dos bilhões de euros, dividido entre Áustria, Itália e a União Europeia, e se arrasta por mais de uma década de escavação.

A previsão é que o túnel entre em plena operação por volta do fim desta década, depois de concluídas as galerias, a instalação da via e os longos testes de segurança exigidos antes de qualquer trem circular.

Até lá, o Brenner segue como uma das maiores obras de engenharia em andamento no mundo, cavando em silêncio o recorde que vai tirar do Gotthard o título de mais longo túnel ferroviário do planeta.

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