Obra de reforço antissísmico em um condomínio de Roma revelou estruturas preservadas sob o edifício e obrigou a construtora a rever parte do projeto, depois que mosaicos sobrepostos, objetos cotidianos e vestígios históricos surgiram no espaço reservado para garagens subterrâneas.
Uma intervenção destinada a reforçar um antigo edifício contra terremotos revelou, sob um condomínio no centro de Roma, os restos de uma residência construída durante o período romano, preservada durante quase dois milênios abaixo de uma construção moderna.
No espaço subterrâneo reservado para oito garagens, as equipes encontraram paredes, objetos cotidianos e seis camadas de pisos decorados com mosaicos, descoberta que obrigou os responsáveis pelo empreendimento a modificar uma parte importante do projeto residencial.
Localizado no sopé do Monte Aventino, uma das sete colinas históricas da capital italiana, o edifício havia sido utilizado pela Banca Nazionale del Lavoro antes de ser adquirido para a criação de um novo condomínio.
Sob responsabilidade da BNP Paribas Real Estate, a conversão do imóvel avançava normalmente até que a abertura das áreas subterrâneas, necessária para o reforço antissísmico, expôs estruturas antigas e mudou o rumo dos trabalhos no terreno.
Oito garagens dão lugar a um sítio arqueológico
Diante da dimensão dos vestígios, a empresa abandonou a construção das oito garagens previstas naquele trecho e liberou o subsolo para que especialistas da Superintendência Especial de Roma conduzissem a escavação, a documentação e a conservação do material.
Conhecida como Domus Aventino, a antiga residência foi ocupada e modificada por diferentes gerações, cujas intervenções permaneceram registradas nos pavimentos, nas paredes e nos objetos recuperados durante o trabalho arqueológico realizado sob o condomínio.
Ao examinar a sequência construtiva, a Superintendência identificou seis níveis de pavimentos sobrepostos entre o fim do século I antes de Cristo e o período Antonino, situado entre os séculos II e III da era comum.
Essa sucessão de camadas mostrou que os antigos moradores reformaram repetidamente a casa, elevaram o nível dos cômodos e substituíram elementos decorativos conforme as necessidades da residência e as mudanças ocorridas ao longo do tempo.
Seis camadas de mosaicos romanos
Entre os elementos mais visíveis da descoberta estão mosaicos formados por desenhos geométricos em preto e branco, círculos, quadrados, figuras entrelaçadas e representações vegetais distribuídas pelos diferentes níveis preservados sob o edifício moderno.
Em uma das composições reconstruídas, videiras saem de um vaso decorativo, enquanto outra imagem apresenta um papagaio verde com detalhes coloridos, recurso que evidencia o cuidado empregado na ornamentação dos ambientes domésticos da residência romana.
Responsável pelas investigações, o arqueólogo Roberto Narducci explicou que a sobreposição de seis camadas de mosaicos representa uma ocorrência rara do ponto de vista científico, especialmente por permitir a leitura de sucessivas reformas realizadas no mesmo imóvel.
Segundo a análise conduzida no local, cavidades abertas por antigas atividades de extração provocaram rebaixamentos no terreno, levando os moradores romanos a nivelar os pisos em diferentes momentos antes que a casa fosse definitivamente abandonada.
Vestígios atravessam oito séculos da história de Roma
Muito além da residência, as escavações realizadas em uma área superior a 2 mil metros quadrados revelaram materiais e estruturas relacionados a cerca de oito séculos da história de Roma, reunidos em diferentes profundidades do terreno.
Entre os vestígios mais antigos apareceram fundações de uma construção defensiva atribuída ao século VIII antes de Cristo, possivelmente ligada a uma torre de observação instalada quando a cidade ainda passava por seu processo inicial de formação.
Além das estruturas arquitetônicas, os pesquisadores recuperaram objetos ligados à vida cotidiana, como uma chave, um martelo, um grampo de cabelo e uma colher, peças que ajudaram a compreender o uso dos ambientes internos.
Recipientes decorados com figuras de Hércules e Atena, inscrições em latim e ânforas utilizadas para armazenar produtos completaram o conjunto, oferecendo informações sobre os hábitos, as atividades domésticas e a condição social dos antigos proprietários.
Residência pertencia a uma família com recursos
A qualidade dos revestimentos, a variedade dos objetos e o nível de elaboração dos mosaicos indicam que a domus pertenceu a uma família com recursos, capaz de realizar sucessivas reformas e investir na decoração dos cômodos.
Diferentes dos edifícios coletivos ocupados por grande parte da população romana, imóveis desse tipo funcionavam como residências urbanas privadas e estavam associados a moradores com maior poder econômico e posição social mais elevada.
Situado próximo a áreas importantes da cidade antiga, o Monte Aventino reunia endereços valorizados por famílias influentes, circunstância que ajuda a contextualizar a presença de uma residência ornamentada sob o atual conjunto de apartamentos.
Condomínio de 180 apartamentos preserva a descoberta
De acordo com a BNP Paribas Real Estate, a conversão dos três edifícios ocupou uma área total de 18 mil metros quadrados e criou 180 apartamentos distribuídos em seis pavimentos acima do solo, preservando o caráter residencial do empreendimento.
Embora o projeto mantivesse áreas de estacionamento em outros pontos subterrâneos, o setor onde a casa romana foi localizada deixou de receber veículos e passou a ser protegido como parte integrante do patrimônio arqueológico encontrado durante as obras.
Para conservar as ruínas dentro de um condomínio em funcionamento, arquitetos e arqueólogos desenvolveram uma estrutura denominada Caixa Arqueológica, planejada para proteger mosaicos, paredes e fundações sem impedir a circulação organizada de visitantes.
Essa solução permitiu manter os achados próximos da posição original, evitando que o conjunto fosse inteiramente removido do terreno e transferido para um museu convencional distante do contexto em que permaneceu preservado.
Restauração recebe investimento de € 3 milhões
Segundo o Smithsonian Magazine, a BNP Paribas Real Estate destinou cerca de € 3 milhões à restauração da domus, trabalho realizado em parceria com a Superintendência Especial de Roma para recuperar e apresentar os vestígios ao público.
Parte do investimento financiou a estabilização das estruturas, o tratamento das superfícies e a adaptação do ambiente subterrâneo, que passou a funcionar como espaço cultural instalado dentro do próprio conjunto residencial.
Ao longo do percurso, projeções luminosas completam trechos ausentes dos mosaicos, recriam cores nas paredes e sugerem a aparência original dos cômodos sem cobrir permanentemente as partes autênticas preservadas pelos arqueólogos.
Sons ambientes e recursos de videomapping acompanham a visita, ajudando o público a reconhecer as diferentes fases históricas da residência e a compreender como o imóvel foi alterado durante séculos de ocupação.
Museu subterrâneo funciona dentro de propriedade privada
Antes da abertura ao público, o trabalho arqueológico exigiu anos de escavação, período em que as equipes retiraram camadas de terra, estabilizaram superfícies frágeis e estudaram a sequência dos pavimentos encontrados.
Enquanto o empreendimento imobiliário avançava ao redor da área protegida, especialistas adaptaram o subsolo para receber visitantes, transformando o antigo espaço de garagens em um museu instalado dentro de uma propriedade privada.
Com visitas guiadas realizadas em datas programadas, a Caixa Arqueológica mantém controle de acesso para preservar tanto os vestígios quanto a rotina dos moradores que ocupam os apartamentos construídos acima do sítio.
Embora os residentes tenham entrada preferencial no espaço, os objetos e as estruturas arqueológicas permanecem sob proteção do Estado italiano, responsável pelo patrimônio histórico localizado durante intervenções realizadas em propriedades públicas ou privadas.
Visto do lado de fora, o conjunto conserva a aparência de um edifício residencial urbano, sem revelar imediatamente que uma antiga casa romana, formada por sucessivas reformas, permanece protegida poucos metros abaixo dos apartamentos.
Já no subsolo, a passagem originalmente planejada para automóveis conduz a mosaicos, paredes e objetos que atravessaram quase dois milênios escondidos, até que uma obra de segurança estrutural voltou a abrir o terreno.
Você abriria mão de oito garagens para manter uma casa romana de quase dois mil anos preservada sob o prédio onde mora?

