Depois de 16 anos subindo 120 degraus escorregadios até a cabine lá em cima para empilhar contêineres, operadora de 40 anos passou a fazer o mesmo serviço sentada no chão, com um joystick e 23 câmeras, no Porto de Santos

bruno teles
Depois de 16 anos subindo 120 degraus escorregadios até a cabine lá em cima para empilhar contêineres, operadora de 40 anos passou a fazer o mesmo serviço sentada no chão, com um joystick e 23 câmeras, no Porto de Santos

Durante mais de uma década e meia, a operadora encarava chuva fina, neblina e o próprio medo de altura para chegar ao posto de trabalho a 30 metros do solo. Hoje ela movimenta contêineres de uma sala de controle no térreo, dentro de um investimento de R$ 130 milhões feito pela Santos Brasil.

Érica Pereira Matias tem 40 anos e passou 16 deles subindo uma escada de 120 degraus quase todos os dias, no terminal da Santos Brasil, no porto de Santos. A operadora de guindaste ficava isolada numa cabine apertada, encardida e solitária, a 30 metros de altura, em turnos de seis horas, e agora faz o mesmo serviço sentada em uma sala no solo, acompanhando o pátio por 23 câmeras. As informações são da reportagem assinada por Alex Sabino e distribuída pela Folhapress em 5 de janeiro de 2025, com apuração feita no Guarujá, no litoral de São Paulo.

A troca de posto não foi um ajuste solto de rotina. Érica foi a pioneira a controlar um dos oito ARTGs comprados pela Santos Brasil, basicamente o mesmo guindaste de pátio de sempre, só que operado a distância, e integra o grupo de 12 funcionários já treinados para a nova função. O movimento faz parte de um plano de descarbonização e de modernização do terminal que consumiu R$ 1,3 bilhão desde 2019 e deve chegar a R$ 2,6 bilhões, segundo os números apresentados pela empresa.

Seis horas de turno sem poder descer para beber água

A subida começava sempre igual. Cento e vinte degraus, chuva fina batendo no metal, neblina cobrindo o pátio e um destino nada convidativo lá no alto: uma cabine apertada, encardida e solitária, a 30 metros do chão. Era ali que a operadora passava seis horas seguidas, sentada com as pernas afastadas, posição obrigatória para conseguir enxergar o que acontecia bem embaixo dela.

No solo, duas marcas de tinta branca indicavam o ponto exato onde o caminhão precisava parar. Com um controle parecido com joystick de videogame, ela manobrava o RTG, sigla que designa o guindaste de pátio usado em terminais portuários, e encaixava os contêineres nas carretas. O relógio nunca parava de correr, e errar não era uma opção barata. Cada operação tem prazo para carregar e descarregar, o que empurra quem está no comando para um equilíbrio difícil: não dá para ir devagar, mas também não dá para errar, como a própria Érica resume ao descrever o ofício.

Havia ainda o detalhe que ninguém imagina ao olhar um guindaste de longe. Se o corpo pedisse uma pausa no meio do turno, era preciso avisar a coordenação da operação, descer os 120 degraus, ir ao banheiro e refazer a escada inteira de volta. Um trajeto que consumia tempo, energia e paciência, repetido dia após dia durante 16 anos.

O trabalho também tinha uma camada invisível de tensão. Sozinha, a 30 metros de altura, ela precisava calcular distância, peso e encaixe olhando para baixo o tempo inteiro, com a carga de um terminal inteiro dependendo do ritmo daquele movimento. Nada disso aparece na foto bonita do porto visto de longe.

As 23 câmeras enxergam o que o olho humano não alcançava

A sala de controle montada pela Santos Brasil mudou a geografia do trabalho. Cada operador tem quatro terminais de vídeo à disposição e pode comandar mais de um ARTG quando a operação exige. A mesa é móvel, e quem preferir passar parte do turno de pé simplesmente ajusta a posição e continua trabalhando, algo impensável dentro de uma cabine suspensa.

A máquina também ganhou olhos que o operador nunca teve. São 23 câmeras no equipamento, cinco delas dedicadas a identificar o caminho, além de sensores que impedem o guindaste de sair do trilho virtual, o traçado que a máquina precisa seguir dentro do pátio. A descrição é de Ricardo Miranda, de 55 anos, diretor de tecnologia da Santos Brasil. Da tela, é possível ver as quatro pontas do contêiner ao mesmo tempo, algo que a olho nu nem sempre o operador conseguia.

Para a operadora e os colegas que passaram anos na cabine, o ganho aparece nas miudezas do dia. Beber água, tomar um café, ir ao banheiro sem transformar isso em evento logístico. O operador Jairson Pinho de Lima, de 49 anos, descreve a nova rotina como mais precisa, mais segura e mais confortável, e não faz esforço nenhum para esconder o alívio.

Existe ainda um ponto técnico que costuma passar despercebido. Enxergar as quatro pontas de um contêiner ao mesmo tempo reduz a chance de encaixe errado, e encaixe errado em um pátio portuário custa caro. A tecnologia, nesse caso, não substituiu o julgamento humano: ampliou o campo de visão de quem decide.

A solidão a 30 metros do chão fazia parte do pacote

Guindaste de pátio não é lugar de conversa. Lá em cima, o operador fica sozinho com o rádio, o painel e a responsabilidade inteira do movimento. Marcio Pereira da Silva, de 42 anos, está há 16 na Santos Brasil e não romantiza o período: para ele, trabalhar no chão e em equipe é melhor, porque a cabine era um posto isolado do resto do mundo.

Antes de subir no guindaste, Marcio era motorista de carreta e não tinha experiência nenhuma com RTG. A mudança, na época, foi grande. Agora ele vive a segunda virada de carreira dentro da mesma empresa, porque além de operar a distância vai virar instrutor. Os 12 funcionários já treinados têm a missão de ensinar outros 40 colegas a fazer o mesmo.

Jairson chegou ao porto por outro caminho. Queria ser piloto de avião, mas não tinha dinheiro para tirar o brevê, e acabou trocando a cabine da aeronave pela cabine do guindaste, a 30 metros de altura. Entre os colegas, ele responde por um apelido que virou piada interna, o mesmo Jaílson que o pai, Jair, ouvia a vida inteira por conta da confusão de nomes.

O risco mudou de endereço, mas não desapareceu. O pior cenário de um turno continua sendo avariar um contêiner com carga de milhões de reais ou provocar um acidente, e não existe tempo para ficar remoendo isso durante a operação, seja no alto do equipamento, seja na sala em que a operadora e os colegas agora trabalham.

A operadora que escondeu a gravidez para não sair do guindaste

Érica já tinha histórico de chegar antes. Foi a primeira mulher da sua turma a operar um RTG e repetiu o feito ao se tornar a pioneira na operação remota. Hoje é a única mulher entre os 12 funcionários treinados para comandar o equipamento em terra firme, um detalhe que diz bastante sobre o perfil histórico da profissão dentro dos terminais portuários.

Dois anos atrás, a operadora tentou esconder que estava grávida para não perder o posto no guindaste. A estratégia durou até o corpo cobrar a conta: quando começou a passar mal, o afastamento da operação se tornou inevitável e ela acabou realocada no treinamento. Se a sala de controle existisse naquela época, ela afirma que teria seguido operando normalmente.

A trajetória fora do porto explica um pouco do tamanho da teimosia. Antes de operar guindastes, Érica trabalhou como corretora de imóveis. Depois conseguiu uma bolsa, formou-se em veterinária e ainda emendou uma especialização na área. Sobre o futuro, diz que pensa em fazer outras coisas quando parar, mas que a intenção por enquanto é seguir operando por muito tempo.

Falta o detalhe que fecha a história e que ela nunca escondeu de ninguém. Durante os 16 anos em que encarou os 120 degraus quase todos os dias, a operadora convivia com medo de altura. Ela resume a própria trajetória em uma frase curta: “Eu venço os meus medos”.

R$ 130 milhões, 713 toneladas de CO2 e uma meta marcada para 2040

A mudança de rotina da operadora tem um número grande atrás dela. Foram R$ 130 milhões investidos pela Santos Brasil nos oito ARTGs, além de outros R$ 15 milhões gastos na eletrificação do pátio. Os oito equipamentos novos são elétricos, enquanto os 39 RTGs que seguem em atividade no terminal funcionam a diesel.

O plano da empresa é substituir todos até 2031 e chegar a 2040 como uma companhia net zero. A troca deve evitar a emissão de 713 toneladas de CO2 por mês, uma redução de 97% em relação ao que o pátio emite hoje, segundo a promessa da própria Santos Brasil.

O cálculo ambiental não é acessório no discurso da companhia. A descarbonização aparece como justificativa central da compra dos guindastes automatizados, e a operação remota entra no mesmo pacote, mexendo ao mesmo tempo na conta de carbono e no dia a dia de quem trabalha no pátio. Um equipamento elétrico controlado do solo elimina duas coisas de uma vez: o motor a diesel ligado durante horas e a escada de 120 degraus.

A conta bilionária da modernização do terminal

Os guindastes são a parte visível de uma obra bem maior. Desde 2019, a Santos Brasil já gastou R$ 1,3 bilhão na ampliação e na modernização do terminal, e a estimativa apresentada pela empresa é que a conta final chegue a R$ 2,6 bilhões quando tudo estiver concluído.

O objetivo é ampliar a capacidade de movimentação. O terminal opera atualmente com 2,4 milhões de TEUs e a projeção é alcançar 3 milhões em 2026, ao final da expansão. TEU é a unidade equivalente a um contêiner de 20 pés de comprimento, oito de largura e oito de altura, a medida padrão usada pelo setor portuário no mundo inteiro.

Mais capacidade significa mais contêineres passando pelo mesmo espaço e, na prática, mais pressão sobre cada movimento do guindaste. É nesse ponto que a operação remota deixa de ser apenas conforto: uma única operadora pode acompanhar mais de um equipamento pelos terminais de vídeo, se a demanda pedir, o que muda a matemática do pátio inteiro.

Os portêineres do cais são o próximo alvo

A automação não deve parar nos guindastes de pátio. O passo seguinte previsto pela Santos Brasil é levar para a sala de controle a operação dos portêineres, equipamentos bem maiores, que trabalham no cais carregando e descarregando contêineres diretamente dos navios.

A empresa já comprou dois desses guindastes e aguarda a entrega. Eles chegam preparados para a transição, com mesa própria para a operação remota, o que indica que o modelo inaugurado pela operadora e pelos colegas tende a se espalhar por outras frentes do terminal.

Enquanto a mudança avança, quem já trocou a cabine pela tela vira peça de ensino. Os primeiros 12 operadores treinados vão formar outros 40, e a experiência acumulada nos anos de escada passa a valer como currículo dentro da sala de controle. Ninguém aprende a calcular o encaixe de um contêiner em um curso rápido, e é justamente esse repertório que a empresa quer transferir para a nova geração de operadores.

O que fica de tudo isso

Dezesseis anos de escada, seis horas de solidão por turno, 120 degraus molhados e um medo de altura carregado em silêncio. A história da operadora do porto de Santos mostra que tecnologia bem aplicada não aparece só na planilha de emissões, aparece no corpo de quem trabalha. A cabine a 30 metros do chão virou passado para 12 pessoas e deve virar passado para outras 40 em breve.

E você, o que acha dessa troca? Operar máquina pesada por controle remoto, com 23 câmeras no lugar da visão direta, torna o trabalho mais seguro ou tira algo importante de quem está no comando? Se fosse na sua profissão, você aceitaria a mudança sem pensar duas vezes ou desconfiaria do que vem depois da automação? Conte nos comentários, principalmente se você trabalha ou já trabalhou em porto.

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