Depois de o marido brincar que ela conseguiria construir uma casa com tanta tralha guardada, uma advogada boliviana encheu 36 mil garrafas PET de resíduo, ergueu com elas um imóvel de 170 metros quadrados e já levantou 300 moradias em cinco países

maria heloisa barbosa borges
Depois de o marido brincar que ela conseguiria construir uma casa com tanta tralha guardada, uma advogada boliviana encheu 36 mil garrafas PET de resíduo, ergueu com elas um imóvel de 170 metros quadrados e já levantou 300 moradias em cinco países

Uma brincadeira do marido foi o que fez a advogada boliviana Ingrid Vaca Diez transformar 36 mil garrafas PET em uma casa de 170 metros quadrados. Cansado de ver a quantidade de material reciclável que ela guardava para trabalhos manuais, ele soltou que dava para construir uma casa com tudo aquilo, e a ideia pegou. Assim nasceu o projeto Casas de Botellas, que reaproveita garrafas plásticas como material de construção para famílias em situação de extrema pobreza, conforme reportagens dos portais BM&C News e eCycle.

Moradora de Warnes, no departamento de Santa Cruz, na Bolívia, Ingrid começou a experimentar formas de erguer paredes com garrafas descartadas no ano 2000. Da primeira casa até hoje, o projeto já levantou cerca de 300 moradias em cinco países da América Latina, tornando se referência em tecnologia social na região e chamando a atenção de comunidades e governos interessados em replicar o método.

A brincadeira do marido que virou projeto

Advogada boliviana encheu 36 mil garrafas PET com resíduo, ergueu uma casa de 170 m² e já construiu 300 moradias em cinco países da América Latina.

O ponto de partida da história tem tom de ironia doméstica. Envolvida com trabalho voluntário desde criança e apaixonada por artesanato, Ingrid guardava em casa uma quantidade enorme de material reciclável, o que incomodava o marido. Foi ele quem, cansado do acúmulo, disse que ela conseguiria construir uma casa com toda aquela tralha, sem imaginar que a provocação viraria um projeto social de verdade.

Ingrid não se importou com o tom debochado e aproveitou a deixa. Incomodada ao mesmo tempo com o acúmulo de lixo plástico e com a falta de moradia digna para famílias vulneráveis, ela decidiu unir os dois problemas em uma solução só. Foi assim que surgiu o Casas de Botellas, ou Casa de Garrafas, um projeto que passou a transformar resíduo em recurso e a oferecer habitação a quem mais precisa.

A primeira casa: 170 metros quadrados e 36 mil garrafas

Advogada boliviana encheu 36 mil garrafas PET com resíduo, ergueu uma casa de 170 m² e já construiu 300 moradias em cinco países da América Latina.

A prova de que a ideia funcionava veio logo na estreia. No ano 2000, Ingrid ergueu sua primeira casa, um imóvel de 170 metros quadrados que consumiu aproximadamente 36 mil garrafas PET de dois litros. O volume impressionante de embalagens serviu de vitrine para explicar o método em oficinas e demonstrações.

O cálculo por trás da obra é bem concreto. Segundo o projeto, cada metro quadrado de parede consome cerca de 80 garrafas PET, o que ajuda a entender por que uma única casa exige dezenas de milhares de unidades. Foi esse resultado inicial, robusto e visualmente marcante, que atraiu o interesse de gente disposta a reproduzir a técnica em outras comunidades.

Como uma garrafa vira tijolo

Advogada boliviana encheu 36 mil garrafas PET com resíduo, ergueu uma casa de 170 m² e já construiu 300 moradias em cinco países da América Latina.

O método de construção é mais simples do que parece à primeira vista. As garrafas PET são recheadas de resíduos e sedimentos diversos, como leite em pó vencido, fuligem, areia, esterco e resíduos orgânicos, e depois amarradas umas às outras para formar as paredes, funcionando como tijolos. Em seguida, são fixadas com cal e cimento, e o acabamento reforça a estrutura.

Advogada boliviana encheu 36 mil garrafas PET com resíduo, ergueu uma casa de 170 m² e já construiu 300 moradias em cinco países da América Latina.

A liga que dá sustentação à casa também aposta em ingredientes de baixo custo. Ingrid desenvolveu uma espécie de cimento sustentável feito à base de barro, açúcar, linhaça e mingau, que preenche os vãos e amarra o conjunto. Além das garrafas plásticas, ela incorpora garrafas de vidro à construção, combinando os dois tipos de embalagem no mesmo sistema de paredes. É um jeito de aproveitar o que seria descartado e transformar em estrutura sólida.

Uma casa em 20 dias com dez voluntários

A velocidade da construção é um dos pontos que mais surpreendem no projeto. Depois de anos aperfeiçoando a técnica, Ingrid garante que é possível erguer uma casa em apenas 20 dias, desde que haja a ajuda de cerca de dez voluntários no processo. O prazo curto torna o modelo atraente para situações de urgência habitacional.

Há um detalhe que ela faz questão de manter, e ele tem função social. Os próprios futuros moradores participam da construção da casa em que vão viver, o que dá mais valor à moradia e cria vínculo com o imóvel. O projeto conta com doações para os materiais de acabamento e para os móveis, mas depende sobretudo de mão de obra disposta a trabalhar de graça para ajudar o próximo, algo que nem sempre é fácil de reunir.

300 casas em cinco países

Do experimento inicial na Bolívia, o Casas de Botellas ganhou escala e cruzou fronteiras. Ao longo dos anos, o projeto já construiu mais de 300 moradias, espalhadas por cinco países da América Latina: além da própria Bolívia, a técnica chegou à Argentina, ao México, ao Panamá e ao Uruguai.

A expansão exigiu adaptação a cada realidade. Em cada país, a técnica é ajustada aos materiais disponíveis, mas mantém sempre a mesma lógica, a de transformar resíduo em recurso e oferecer habitação a quem mais precisa. Foi esse método, replicável e de baixo custo, que consolidou o projeto como referência em tecnologia social na região.

Dois problemas resolvidos de uma vez

A força da proposta de Ingrid está em atacar duas questões graves ao mesmo tempo. De um lado, o acúmulo de lixo plástico, que se transforma em material de construção em vez de ir para o meio ambiente. De outro, o déficit habitacional, que ganha uma alternativa barata e acessível para famílias sem condições de erguer uma casa convencional.

O ganho ambiental vai além de tirar garrafas de circulação. Substituir parte do tijolo e do cimento comum por garrafas recheadas ainda reduz a dependência de um material cuja produção está entre as maiores fontes de emissão de gás carbônico do planeta. Ao juntar reaproveitamento de resíduo e moradia popular no mesmo lugar, o projeto oferece uma solução que pode ser copiada em comunidades carentes de forma simples e barata.

O sonho de construir no Brasil

Depois de rodar cinco países, Ingrid mira um novo destino para o projeto. Ela pretende levar as casas de garrafa PET para o Brasil, onde acredita que será mais fácil reunir a matéria-prima necessária para as construções, justamente por causa do perfil do país.

A aposta dela tem uma justificativa clara. Na visão de Ingrid, o Brasil tem uma cultura de reciclagem mais difundida e um povo mais receptivo ao trabalho voluntário do que outros países da América Latina, o que facilitaria tanto a coleta das garrafas quanto a formação dos mutirões. Se der certo, o método que começou com uma brincadeira em uma casa boliviana pode ganhar mais um país na lista.

Uma casa inteira erguida com o que seria lixo

O que Ingrid Vaca Diez construiu ao longo de mais de duas décadas mostra que uma provocação doméstica pode virar política de moradia. Foram 36 mil garrafas PET na primeira casa, 170 metros quadrados erguidos com o que seria descartado e cerca de 300 famílias abrigadas em cinco países, tudo a partir de embalagens recheadas de resíduo e amarradas como tijolos.

E aí fica a pergunta que rende conversa de verdade. Você moraria numa casa feita de garrafas PET recheadas de resíduo, ou ainda tem receio sobre a resistência de uma construção assim? Comenta aqui embaixo se você acha que esse tipo de moradia sustentável deveria virar política pública no Brasil, e o que você faria com as garrafas que descarta toda semana.

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