Ele carregou 175 toneladas de granito nas costas, passou 5 anos construindo sozinho uma cabana de 28 m² sem luz da rua e ainda instalou um teleférico particular de um assento na montanha

maria heloisa barbosa borges
Ele carregou 175 toneladas de granito nas costas, passou 5 anos construindo sozinho uma cabana de 28 m² sem luz da rua e ainda instalou um teleférico particular de um assento na montanha

O ex snowboarder profissional Mike Basich construiu com as próprias mãos uma cabana de aproximadamente 28 metros quadrados no alto de Donner Summit, na Califórnia, em um terreno de 40 acres, cerca de 16 hectares, comprado por ele em 2004. A obra levou cinco anos e consumiu cerca de 175 toneladas de granito carregadas manualmente até o ponto de construção, segundo reportagem assinada por David Bunker e publicada pela revista Tahoe Quarterly em 2019.

A casa não tem ligação com a rede elétrica e funciona com energia solar. Para chegar em casa, Basich troca o carro por uma moto de neve e percorre quilômetros de neve acumulada até a porta dos fundos, trajeto que substitui a garagem comum dos vizinhos da região do lago Tahoe. Na propriedade, ele instalou ainda um teleférico particular de um lugar só, usado para subir a montanha e descer esquiando sozinho.

175 toneladas de granito carregadas à mão

Basich exibe uma placa personalizada que fez para sua propriedade após comprar o terreno de 40 acres em 2004. Foto de Wayen.

O número que impressiona nessa história não é a metragem, é o peso. Basich transportou manualmente cerca de 175 toneladas de granito até o local da obra, pedra por pedra, para levantar as paredes e compor partes do piso da cabana.

O resto do trabalho seguiu a mesma lógica. Ele misturou cimento em temperaturas abaixo de zero e esculpiu à mão cada tábua e cada bancada da casa. Foram cinco anos carregando pedra, serrando madeira e trabalhando o aço para terminar um projeto que caberia dentro de uma sala grande. Amigos deram apoio em etapas ao longo dos anos, mas a execução ficou nas mãos dele.

Um inverno dentro de uma tenda antes da primeira parede

A construção não começou com planta pronta. Depois de comprar o terreno em 2004, Basich passou um inverno morando em uma tenda no estilo indígena montada na própria propriedade, com o objetivo de observar como a neve se acumulava e como o vento se comportava naquele pedaço de montanha.

Essa temporada definiu o projeto. Ao entender os padrões climáticos e a topografia do lugar, ele escolheu erguer a cabana no topo de uma cúpula de granito. Blocos enormes de rocha viraram seções do piso, e outros ficaram inclinados de propósito para criar espaço de armazenamento embaixo da casa. A construção não foi encaixada no terreno: o terreno virou parte da construção.

A planta em forma de pentágono e a proporção áurea

A fachada robusta da casa, revestida de granito, foi construída para resistir às intempéries. Foto de Ryan Salm.

A cabana tem planta baixa pentagonal, decisão que não veio de um manual de arquitetura. A forma nasceu da imagem clássica de quem chega ao topo de uma montanha e abre os braços e as pernas em pose de vitória, gesto que desenha exatamente um pentágono no ar.

Sobre essa base, Basich aplicou a proporção áurea, relação matemática que aparece na natureza e na arte e que orienta as medidas do projeto. É uma casa pequena construída a partir de uma regra de proporção, e não de um cálculo de metragem. Ele próprio associa a escolha da forma a algo mais profundo do que estética, ligado a uma inspiração espontânea.

Vinte e oito metros quadrados, mezanino incluído

As paredes envidraçadas criam uma sensação de amplitude no interior da casa, foto de Ryan Salm.

O tamanho é o dado mais surpreendente para quem olha as fotos. A área total gira em torno de 300 pés quadrados, o equivalente a cerca de 28 metros quadrados, e esse número já inclui o mezanino onde ele dorme. É menos que muitos quartos de casa comum.

A sensação de amplitude vem das aberturas. Janelas panorâmicas com anéis de metal se abrem para um deck amplo, e as paredes envidraçadas empurram o olhar para fora, o que faz a cabana parecer maior do que é. Em construções minúsculas, a vista funciona como metro quadrado extra. Cada centímetro do interior foi projetado com função definida, sem espaço sobrando para desperdício.

O mezanino resolve o problema da cama. Em vez de ocupar área útil no piso, o espaço de dormir foi empurrado para cima, o que libera o térreo para as funções do dia. É a solução clássica das construções mínimas, e nesse caso ela está contabilizada dentro dos 28 metros quadrados, e não somada por fora, como costuma acontecer em anúncios de casas compactas.

O detalhe que só acontece uma vez por ano

Existe um elemento na casa que funciona como relógio solar particular. Uma estrela de metal fixada na janela projeta um desenho no piso, e esse desenho se encaixa perfeitamente dentro do pentágono de madeira do chão em uma tarde específica do calendário.

A data escolhida não é aleatória: 29 de outubro, aniversário do dono da cabana. Durante os outros 364 dias do ano, o padrão de luz simplesmente não coincide. É o tipo de detalhe que exige cálculo de ângulo solar antes de a janela ser instalada, e que resume o nível de obsessão aplicado ao projeto.

Osso de mamute, chifre de veado e pedra sabão

A cabana construída à mão por Mike Basich resistiu a muitas tempestades de neve em seu ponto privilegiado no Donner Summit, como esta em janeiro de 2019, foto de Ryan Salm.

O interior é um catálogo de materiais incomuns. O centro do piso é um pentágono de madeira de laranjeira de osage, cercado por peças entrelaçadas de tulipeiro. Nas paredes, granito trabalhado à mão. Ao redor da lareira, pedra sabão. Nos armários, chifres de veado usados como puxadores.

O móvel mais chamativo fica no meio da sala. A mesa de centro em carvalho reúne mármore, madeira petrificada e um osso de mamute petrificado na mesma peça, apoiada em pés de metal que sustentam cristais de grande porte. É mobiliário que funciona como coleção de história natural dentro de uma cabana de 28 metros quadrados. Nada disso foi comprado pronto em loja de decoração.

Energia solar, banheira a lenha e nenhuma conta de luz

A independência da rede elétrica é o que sustenta a expressão fora da rede aplicada à cabana. A iluminação e o funcionamento da casa vêm de painéis solares instalados na propriedade, sem qualquer ligação com a distribuidora de energia da região.

O aquecimento segue a mesma lógica de autossuficiência. Um fogão a lenha aquece a água da casa e alimenta o forno, enquanto uma banheira de hidromassagem aquecida a lenha fica logo abaixo do deck, ao lado de uma piscina de água fria, ambas a poucos passos da porta. Quem mora ali não recebe conta de luz nem depende de caminhão de gás para tomar banho quente. A contrapartida é o trabalho constante que um sistema desses exige no inverno.

O teleférico de um lugar só e a moto de neve no lugar do carro

A rotina de acesso à cabana é a parte mais improvável da história. Enquanto os vizinhos da região de Tahoe estacionam o carro na garagem, Basich atravessa quilômetros de neve em uma moto de neve, cruzando riachos cobertos, até chegar aos fundos de casa. No inverno, é assim que se chega e assim que se sai.

Dentro da propriedade, ele montou a própria estrutura de esqui. Há um teleférico particular com um único lugar, além de uma corda de reboque construída com peças de carros e de carrinhos de golfe, inspirada em viagens dele à Nova Zelândia. Também existe uma máquina de preparação de pistas guardada no terreno, usada quando a neve está boa para montar saltos. Ele resume a sensação de estar sozinho no teleférico em um feriado dizendo que se sente um bilionário. Não é figura de linguagem sobre dinheiro, e sim sobre exclusividade.

Quem é o homem que construiu a cabana

Basich não é um eremita anônimo que decidiu sumir no mato. Ele foi um dos nomes em ascensão nos anos de formação do snowboard, competiu nos principais campeonatos do mundo nas décadas de 1980 e 1990 e depois migrou para a filmagem, a fotografia e o snowboard fora de pista, quando a carreira competitiva se encerrou.

Como fotógrafo, ficou conhecido pelo trabalho com autorretratos acionados à distância, incluindo uma imagem em que aparece saltando de um helicóptero a mais de 30 metros de altura no Alasca. Ele também montou uma versão inicial de realidade virtual usando várias câmeras GoPro, criou a própria marca de roupas, a 241 Collection, e construiu uma casa sobre rodas feita à mão. Basich credita a criatividade aos pais e à convivência com a epilepsia, que segundo ele o fez enxergar as coisas de fora, como um estranho.

O trabalho manual dele encontrou público fora do esporte. Na época da reportagem, Basich reunia mais de 25 mil seguidores no Instagram e somava dezenas de milhões de visualizações em vídeos publicados na internet, atraindo uma geração interessada em construções do tipo faça você mesmo. Ele também trabalhava em um veículo de neve encomendado por uma cervejaria, projetado para se transformar em um bar sobre a neve.

Reconhecimento entre pares e o projeto seguinte

Quem trabalhou com ele confirma o método. Andy Finch, snowboarder profissional e atleta olímpico radicado em Truckee, ajudou Basich em vários projetos na propriedade e resume o jeito dele como uma disposição de mergulhar de cabeça e resolver no caminho, apoiada em habilidade manual e teimosia. Segundo Finch, Basich transforma sonhos em realidade.

Os dois se conheceram no início dos anos 2000, em Lake Placid, no estado de Nova York, quando Finch saltava um vão de 27 metros e Basich pediu para segui lo com a câmera logo depois do salto. Na época da reportagem, em 2019, Basich tinha acabado de se tornar pai, havia comprado um terreno vizinho de mais de 16 hectares e planejava construir ali uma casa maior. A própria explicação dele é direta: a cabana atual foi feita com base nele, e a próxima seria baseada na família.

Você trocaria a cidade por 28 metros quadrados na neve

A história tem dois lados que raramente aparecem juntos. De um lado, uma cabana feita à mão, sem conta de luz, com vista de montanha, teleférico particular e neve intocada no quintal. De outro, cinco anos de obra puxada, 175 toneladas de pedra carregadas manualmente, moto de neve como único transporte no inverno e 28 metros quadrados para viver.

Agora queremos ouvir você. Você aguentaria morar em 28 metros quadrados isolado na montanha, ou o isolamento e o tamanho matariam o encanto na primeira semana? E, sendo honesto, o que mais te atrai nessa história: a liberdade de não depender de rede elétrica ou a ideia de construir a própria casa do zero com as próprias mãos? Comenta aqui embaixo o que você faria no lugar dele.

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