Em vez de abrir uma faixa na mata e mandar equipes para dentro, a maior fábrica de celulose do mundo usou drones para levar pelo ar as cordas dos cabos de alta tensão e poupou 33 hectares de vegetação nativa em Mato Grosso do Sul

maria heloisa barbosa borges
Em vez de abrir uma faixa na mata e mandar equipes para dentro, a maior fábrica de celulose do mundo usou drones para levar pelo ar as cordas dos cabos de alta tensão e poupou 33 hectares de vegetação nativa em Mato Grosso do Sul

Havia autorização para derrubar a vegetação no caminho da linha de transmissão, mas a fábrica optou por não usar. Drones levaram as cordas guia pelo ar, e o resultado foi 33,29 hectares de mata nativa em pé e 4.566 toneladas de CO2 equivalente que continuaram estocadas.

A Arauco usou drones no lançamento dos cabos de alta tensão que vão ligar o Projeto Sucuriú, futura fábrica de celulose em Inocência, no Mato Grosso do Sul, ao Sistema Interligado Nacional, com ponto de conexão em Selvíria, também no estado. A operação aconteceu em julho de 2026 e, segundo informações da empresa publicadas pelo portal ND Mais, preservou 33,29 hectares de vegetação nativa que seriam suprimidos pelo método convencional.

Em trechos específicos do traçado, os equipamentos aéreos substituíram a técnica tradicional, que exige a abertura de faixa no meio da mata e a entrada direta de equipes na vegetação. Os drones levaram pelo ar as primeiras cordas guia, peças que puxam os cabos de alta tensão de uma torre a outra e viabilizam toda a montagem seguinte da linha.

Como o drone entrou no lugar da faixa aberta na mata

A Arauco utilizou drones na instalação de cabos de alta tensão no Mato Grosso do Sul em julho de 2026, tecnologia que preservou 33,29 hectares de vegetação nativa no Projeto Sucuriú
Foto: Arauco/Reporoduçã

O lançamento de cabos em uma linha de transmissão começa por um detalhe que parece pequeno: uma corda fina, chamada corda guia, precisa vencer o vão entre duas torres. Ela é que puxa o cabo de verdade depois. No método convencional, essa corda vai pelo chão, e o chão precisa estar limpo. Isso significa cortar vegetação, abrir caminho e colocar gente dentro da mata carregando o material.

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A alternativa adotada no Projeto Sucuriú inverteu a lógica. Em vez de abrir o terreno para a corda passar, a corda passou por cima do terreno. O drone leva a ponta de um vão a outro, a equipe conecta e o cabo é tracionado sem que a faixa precise ser derrubada. A economia ambiental não está na linha em si, que continua existindo, e sim na supressão que deixou de acontecer nos trechos onde a técnica foi aplicada.

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Foto: Arauco/Reporodução

Cabe um registro de escala. A técnica foi aplicada em trechos específicos do traçado, e não ao longo dos 91 quilômetros inteiros da linha que vai alimentar a fábrica. Ou seja, parte do percurso seguiu o procedimento convencional, com faixa aberta e equipe em campo. O ganho divulgado se refere ao que foi evitado nos pontos onde o drone entrou, não à obra completa.

A autorização que existia e não foi usada

O ponto mais incomum dessa história não é técnico, é de decisão. A empresa já tinha licença para suprimir a vegetação ao longo do traçado, o que significa que derrubar era legal e estava previsto. Ainda assim, a alternativa aérea foi escolhida para reduzir ao máximo a intervenção nas áreas de vegetação nativa.

Decisões assim costumam esbarrar em custo e prazo, os dois argumentos que normalmente derrubam alternativas ambientais em obras desse porte. No caso da fábrica de Inocência, a solução aérea foi adotada mesmo com o caminho mais simples liberado no papel. Quem explica o raciocínio é Camila Paschoal, gerente de Meio Ambiente da Arauco Celulose. Segundo ela, o projeto nasceu de uma decisão técnica e ambiental clara, buscando uma saída que diminuísse a necessidade de entrar em área nativa mesmo com o aval já concedido. Autorização para derrubar não obriga ninguém a derrubar, e é exatamente esse o gancho que faz o caso virar referência para outras obras de infraestrutura.

33,29 hectares em pé e 4.566 toneladas de CO2 que não subiram

Complexo industrial terá capacidade de produzir 2,5 milhões de toneladas de celulose por ano
Foto: Divulgação/CMPC

O número que resume o resultado é 33,29 hectares de vegetação nativa preservada. Para efeito de comparação, é uma área equivalente a algo perto de 33 campos de futebol de porte oficial que continuaram com árvores em cima em vez de virar faixa aberta.

A conta usa a unidade padrão do setor. CO2 equivalente é a forma de somar gases diferentes em um único número, convertendo cada um pelo poder de aquecimento que tem em relação ao gás carbônico. A empresa calcula que aproximadamente 4.566 toneladas de CO2 equivalente permaneceram estocadas no solo e nas plantas, sem serem lançadas na atmosfera. Vegetação derrubada não some, ela vira gás. É por isso que a conta de carbono anda colada à conta de hectares em qualquer obra que corte áreas nativas, e é essa soma que a fábrica apresenta como ganho ambiental do método.

91 quilômetros de linha e mais de mil quilômetros de cabo

A dimensão da estrutura ajuda a entender o tamanho do problema que estava em jogo. A linha de transmissão tem 91 quilômetros de extensão e soma 1.045 quilômetros de cabos de alta tensão, número maior porque cada torre carrega vários condutores ao longo do mesmo traçado.

Os drones não foram a única solução aplicada na linha que ligará a fábrica ao sistema elétrico. Para reduzir interferência nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, a engenharia trabalhou com variação na altura das torres, que vão de 13,5 a 54 metros, e com o alteamento de estruturas em pontos sensíveis, técnica usada para proteger Áreas de Preservação Permanente. Quanto mais alta a torre, mais longe do chão passa o cabo e menos precisa ser cortado embaixo dele. A distância dos cabos em relação ao solo varia entre 13 e 50 metros ao longo do percurso.

1.515 sinalizadores para as aves que cruzam o traçado

Linha de transmissão tem um efeito colateral conhecido: pássaro em rota de voo não enxerga cabo fino contra o céu. A resposta adotada no projeto foram 1.515 sinalizadores anticolisão instalados ao longo da linha, dispositivos que tornam o cabo visível para as aves.

A distribuição ao longo do traçado que serve a fábrica não foi aleatória. Os equipamentos foram concentrados em trechos próximos a áreas úmidas e a fragmentos florestais, justamente onde a avifauna migratória circula com mais frequência. São os pontos em que o risco de colisão é maior, e por isso recebem a maior densidade de sinalização. A medida entra no pacote de proteção à biodiversidade local apresentado pela empresa junto com a preservação dos hectares.

Menos equipe pendurada em lugar de difícil acesso

O ganho ambiental veio acompanhado de um ganho de segurança que costuma passar despercebido. Ao dispensar a abertura de faixa em determinados trechos, a técnica reduziu a necessidade de acesso físico a locais de difícil alcance, aqueles pontos onde a topografia e a vegetação transformam qualquer deslocamento em risco.

Menos gente em campo significa menos exposição das equipes contratadas para a obra da fábrica a acidentes de trabalho. Em obra de linha de transmissão, o trecho mais perigoso costuma ser justamente o mais fechado. O conjunto de decisões levou o projeto a ser finalista do quarto Prêmio Ipê Amarelo de Meio Ambiente, promovido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul.

400 megawatts, metade para a fábrica e metade para o país

A linha existe por um motivo bem prático: conectar a futura unidade ao sistema elétrico brasileiro. Quando entrar em operação, a fábrica terá capacidade de gerar 400 megawatts, energia produzida dentro do próprio complexo industrial a partir do processo de celulose.

A divisão desse total é meio a meio. Metade, 200 megawatts, fica para o consumo interno da planta. A outra metade vai para o Sistema Interligado Nacional, e a empresa compara o excedente à demanda de uma cidade do porte de Campo Grande. Uma fábrica que se conecta à rede não apenas para consumir, mas para vender energia, é o que explica a necessidade de uma linha de 91 quilômetros até Selvíria.

Os números da fábrica que quer ser a maior do mundo

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O Projeto Sucuriú é apresentado como a futura maior fábrica de celulose do planeta. O investimento anunciado é de US$ 4,6 bilhões, valor que a reportagem também apresenta como R$ 25 bilhões. A planta ocupará 3.500 hectares às margens do Rio Sucuriú, a 50 quilômetros do centro de Inocência, e terá capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas de fibra curta de celulose por ano.

O cronograma já está em curso. As obras de terraplanagem começaram em 2024 e a operação está prevista para o fim de 2027. O complexo inclui ainda uma ferrovia de 54 quilômetros, estrutura necessária para escoar um volume de produção dessa escala. É o tipo de empreendimento que muda a logística de uma região inteira antes mesmo de a primeira tonelada sair da linha.

14 mil vagas na obra e 6 mil depois que a fábrica ligar

O impacto no mercado de trabalho aparece em duas fases distintas, e confundir as duas é o erro mais comum na leitura desse tipo de anúncio. Durante a construção, o projeto prevê capacitação e geração de mais de 14 mil oportunidades de trabalho, empregos ligados ao canteiro e com prazo definido pelo próprio cronograma da obra.

Depois do start up, o quadro muda de tamanho e de natureza. São cerca de 6 mil postos permanentes distribuídos entre as operações industrial, florestal e de logística. Somando as duas fases, chega se ao número de 20 mil vagas que costuma aparecer nas manchetes, ainda que 14 mil delas existam apenas enquanto a obra durar.

A primeira unidade de celulose da empresa no Brasil

A Arauco não é estreante no país, mas é estreante nesse segmento por aqui. A companhia atua no Brasil desde 2002 nas áreas florestal e de madeiras, tem mais de 3.000 colaboradores próprios e opera cinco unidades industriais nos estados do Paraná e do Rio Grande do Sul.

Inocência será a primeira fábrica de celulose da empresa em território brasileiro, o que explica o peso institucional dado ao projeto. A companhia informa manter certificação FSC em suas florestas, selo de gestão florestal responsável. É a entrada da divisão de celulose do grupo em um mercado onde o Brasil já é protagonista mundial, e agora com a promessa de abrigar a maior planta do setor.

O que você acha desse tipo de solução

O caso do Projeto Sucuriú coloca duas coisas na mesma mesa. De um lado, uma obra gigantesca, com bilhões investidos, ferrovia própria, linha de transmissão de 91 quilômetros e uma fábrica que promete ser a maior do mundo no setor. De outro, uma decisão pontual que evitou a derrubada de 33,29 hectares em um traçado onde o corte já estava autorizado.

Agora é a sua vez de opinar. Você acha que soluções como o uso de drones deveriam virar exigência nas licenças ambientais de grandes obras, ou basta que fiquem como iniciativa voluntária das empresas? E mais: preservar 33 hectares em um projeto que ocupa 3.500 hectares é ganho ambiental relevante ou é pouco perto do tamanho do empreendimento? Comenta aqui embaixo o que você pensa sobre isso.

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