À frente da Comissão de Linhas Telegráficas, o então tenente-coronel Rondon cruzou selvas inexploradas por oito anos, e o fio que ele instalou logo perdeu utilidade, mas o que ficou mudou o mapa do Brasil
Entre 1907 e 1915, um oficial do Exército Brasileiro liderou uma das empreitadas mais duras já tentadas em território nacional, estender mais de 2 mil quilômetros de linhas de telégrafo por dentro da floresta amazônica, ligando Mato Grosso ao extremo oeste do país. O homem à frente daquilo era Cândido Mariano da Silva Rondon, o futuro marechal.
A missão parecia simples no papel do governo, e era brutal na prática. Rondon e sua tropa enfrentaram malária, fome, rios encachoeirados e milhares de quilômetros de mata sem mapa, plantando postes e esticando fios onde nenhum Estado havia chegado antes.
A ironia é que o telégrafo, razão oficial de todo aquele sacrifício, teve vida curta. Poucos anos depois de pronta, a linha começou a cair em desuso, atropelada pela chegada do rádio e das comunicações sem fio.
Um exército contra a floresta
O que a Comissão Rondon fez, porém, foi muito além de pendurar arame na selva. Ao abrir caminho pela mata, a expedição mapeou rios, mediu terras, catalogou a fauna e a flora e desenhou pela primeira vez, com precisão, um pedaço gigantesco e desconhecido do Brasil.
Rondon também transformou o modo como o Estado brasileiro tratava os povos indígenas. Em 1910 ele passou a dirigir o Serviço de Proteção aos Índios, embrião da atual Funai, guiado por um lema que virou marca de sua vida, “morrer se preciso for, matar nunca”, uma orientação registrada em detalhe pelos arquivos históricos sobre sua trajetória.
Aquela postura contrariava a lógica violenta da época. Diante de povos que nunca tinham visto um não indígena, Rondon proibia que seus homens revidassem a flechadas, mesmo sob ataque, apostando no contato pacífico como método de trabalho e princípio.
O rio da dúvida e o mundo de olho no Brasil
O prestígio de Rondon como sertanista atravessou fronteiras. Entre 1913 e 1914 ele guiou pela Amazônia uma expedição científica ao lado do ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, numa jornada por um curso d’água até então batizado de Rio da Dúvida, tão desconhecido que ninguém sabia para onde ia.
A viagem quase matou Roosevelt, minado por febre e ferimentos, e coletou mais de 23 mil espécimes de animais e plantas para museus americanos. O Rio da Dúvida foi rebatizado de Rio Roosevelt, e o mundo passou a olhar para o interior do Brasil com outros olhos, graças ao militar que abria as picadas.
O nome de Rondon acabou eternizado no próprio mapa que ele ajudou a desenhar. O estado de Rondônia, na fronteira oeste, carrega até hoje a lembrança do oficial que levou a presença do Estado brasileiro a onde antes só havia floresta.
A Amazônia que o Exército ainda guarda
A obra de Rondon continua atual num ponto essencial, a ideia de que garantir a soberania sobre a Amazônia depende de presença física, e não apenas de mapas e discursos. Foi ele quem inaugurou a tradição do Exército como agente de integração da fronteira mais isolada do país.
Um século depois, essa missão segue viva e cada vez mais estratégica. Num tempo em que se discute abertamente se as Forças Armadas conseguiriam defender a floresta diante da cobiça internacional, a lógica de Rondon, ocupar, conhecer e proteger, é mais do que memória, é doutrina em uso.
O telégrafo enferrujou, mas a lição sobreviveu. A linha mais importante que Rondon estendeu foi feita de presença brasileira sobre o próprio território, o tipo de conquista que nenhuma tecnologia torna obsoleta.

