Enquanto realizavam uma expedição científica havia 47 dias, dois pesquisadores encontraram um veleiro abandonado de quase 15 metros navegando sozinho, tentaram levá-lo por cerca de 1.287 quilômetros até Bermuda

fabio lucas carvalho
Enquanto realizavam uma expedição científica havia 47 dias, dois pesquisadores encontraram um veleiro abandonado de quase 15 metros navegando sozinho, tentaram levá-lo por cerca de 1.287 quilômetros até Bermuda

Matt Rutherford e Nicole Trenholm encontraram o veleiro abandonado a 800 milhas de Bermudas, receberam 50 galões de diesel de um cargueiro e enfrentaram motores avariados, ventos contrários e danos no barco antes de encerrar a tentativa de resgate após cinco dias.

Um veleiro de quase 15 metros, vazio e aparentemente perdido no Atlântico Norte, transformou uma expedição científica em uma complicada operação de salvamento. A tentativa envolveu combustível fornecido por um cargueiro, motores avariados e cinco dias de reboque em alto-mar.

O episódio ocorreu em 22 de julho de 2013, quando o navegador norte-americano Matt Rutherford e a cientista ambiental Nicole Trenholm completavam 47 dias no mar a bordo do Ault, um veleiro de pesquisa com casco de aço e 42 pés.

A dupla trabalhava para o Ocean Research Project, organização dedicada à coleta de dados marítimos. Naquele dia, navegava pelo Giro do Mar dos Sargaços quando avistou uma embarcação maior, sem velas levantadas e aparentemente à deriva.

Segundo o relato publicado pela revista marítima irlandesa Afloat, Rutherford e Trenholm mudaram de direção porque acreditaram que alguém poderia estar precisando de ajuda.

Matt Rutherford na proa do navio de pesquisa AULT, um veleiro clássico de casco de aço e 42 pés, projetado por Tom Colvin e especialmente equipado.

Matt Rutherford subiu sozinho no veleiro vazio

Depois de chamar pela tripulação e não receber resposta, Rutherford utilizou um pequeno caiaque para chegar à embarcação. O navegador subiu a bordo com receio de encontrar alguém sem vida, mas descobriu que o veleiro estava completamente vazio.

A embarcação era o Wolfhound, um Nautor Swan 48 ligado ao Royal Irish Yacht Club. Dentro dele, Rutherford encontrou informações que permitiram identificar o proprietário, Alan McGettigan, e a seguradora responsável pelo barco.

O Wolfhound estava aproximadamente 800 milhas — cerca de 1.287 quilômetros — a sudeste de Bermudas. A embarcação apresentava água no porão, cabos estruturais rompidos, vela principal danificada e problemas no mastro.

Rutherford retirou a água acumulada, amarrou o mastro com cabos disponíveis e recolheu a âncora que estava sendo arrastada. O objetivo passou a ser rebocar o veleiro de 48 pés até Bermudas usando o Ault, que tinha apenas 42 pés.

🤯Dude finds an ABANDONED SAILBOAT in the middle of the Atlantic Ocean.

He goes on board, hoping there won’t be any dead bodies.💀

Then he attempts to tow the boat back to land and runs out of fuel, asking a passing tanker for a fuel delivery. ⛽️

Eventually his own engine… pic.twitter.com/iqZbjNgDS9

— The Xplorer (@Xplorer_Report) July 25, 2026

Tripulação original havia sido resgatada meses antes

O mistério sobre o desaparecimento dos ocupantes já tinha uma explicação. O Wolfhound havia sido abandonado em fevereiro daquele mesmo ano, durante uma viagem entre Connecticut, nos Estados Unidos, e Bermudas.

O proprietário Alan McGettigan viajava com Declan Hayes, Morgan Crowe e Tom Mulligan. Durante a travessia, o veleiro enfrentou uma tempestade, perdeu energia elétrica e posteriormente ficou também sem o funcionamento do motor.

Diante das condições meteorológicas e das dificuldades para alcançar Bermudas, McGettigan acionou o sinalizador de emergência em 8 de fevereiro. Um avião da Guarda Costeira dos Estados Unidos localizou o grupo e coordenou a assistência.

Na manhã de 9 de fevereiro de 2013, os quatro navegadores foram retirados pelo cargueiro grego Tetien Trader, aproximadamente 70 milhas ao norte de Bermudas. Não houve mortes nem ferimentos graves, conforme a reconstituição detalhada do resgate publicada pela Afloat.

O Wolfhound se soltou dos cabos após o resgate e voltou a ficar à deriva. Ele não foi visto afundando e permaneceu navegando sozinho pelo Atlântico até ser encontrado meses depois pela expedição científica.

Cargueiro forneceu 50 galões de diesel

Rutherford e Trenholm não possuíam combustível suficiente para rebocar o Wolfhound por toda a distância. Eles conseguiram retirar apenas 12 galões de diesel do tanque da embarcação abandonada.

No dia seguinte, avistaram um navio mercante e solicitaram mais combustível. A tripulação do cargueiro concordou em fornecer 50 galões de diesel, entregues em recipientes enquanto o Ault navegava próximo ao casco do navio.

Algumas horas depois, porém, o motor do Ault começou a perder potência e parou. Rutherford trocou filtros, limpou o combustível e tentou repetidamente religar o sistema durante aproximadamente 36 horas, mas não conseguiu.

O navegador concluiu que o diesel recebido estava contaminado e havia danificado a bomba injetora. Essa explicação aparece em seu relato sobre o episódio, mas não há indicação de que o combustível tenha passado por uma análise técnica independente.

A avaria também foi registrada por publicações especializadas da época, como a Wave Train, que acompanhou a tentativa de levar o veleiro abandonado até Bermudas.

Reboque terminou depois de cinco dias

Sem o motor do Ault, Rutherford tentou ligar o motor do próprio Wolfhound, mas também não conseguiu. Restava utilizar as velas do barco de pesquisa para puxar a embarcação maior.

Os ventos fracos ou contrários, entretanto, empurravam os dois veleiros para longe de Bermudas. O cabo de reboque também se enrolou repetidamente no leme e em outros equipamentos, enquanto o Ault acumulava danos.

Depois de cinco dias de reboque, Rutherford e Trenholm decidiram cortar o cabo. O Wolfhound voltou a ficar sozinho no Atlântico, enquanto a dupla retomou sua própria viagem com o motor avariado.

Os pesquisadores ainda enfrentaram um longo período de calmaria antes de chegar a Bermudas. A história ganhou nova repercussão quando imagens antigas foram publicadas novamente em 2022, levando parte do público a acreditar que o encontro havia acontecido recentemente.

A Afloat esclareceu em janeiro de 2023 que o vídeo mostrava o episódio de 2013. O destino final do Wolfhound, depois de ser solto pela segunda vez, permanece desconhecido.

Share This Article