Durante décadas, filmes, campanhas publicitárias e discursos sobre masculinidade transformaram a testosterona em uma espécie de combustível biológico da força, da coragem e da agressividade.
A ciência, no entanto, mostra que o funcionamento desse hormônio é muito mais complexo do que a imagem do guerreiro invencível produzida pela cultura popular.
O Pentágono determinou que militares da ativa e da reserva com 30 anos ou mais passem por uma triagem anual obrigatória para deficiência de testosterona durante a avaliação periódica de saúde.
A medida foi assinada em 15 de julho de 2026 por Pete Hegseth, que utiliza o título secundário de secretário de Guerra dos Estados Unidos, e também permite que militares abaixo dos 30 anos solicitem o exame voluntariamente.
Segundo a Revista Fórum, a decisão provocou críticas de pesquisadores que questionam a relação direta apresentada pelo governo entre testosterona, desempenho físico e capacidade de combate.
Entre eles está Adam Stanaland, professor assistente de Psicologia da Universidade de Richmond e pesquisador dedicado ao estudo da masculinidade.
Exame obrigatório não significa tratamento obrigatório
O memorando estabelece a realização obrigatória da triagem, mas não determina que militares com resultados considerados baixos sejam automaticamente submetidos à reposição hormonal.
Hegseth afirmou que os militares receberão orientações médicas e poderão decidir voluntariamente se aceitam um tratamento recomendado.
O Departamento de Guerra sustenta que a iniciativa permitirá criar uma base de dados hormonal mais ampla e oferecer terapias direcionadas para aumentar a prontidão, a resistência e o desempenho da tropa.
A ordem também determina que os procedimentos internos sejam atualizados até 15 de agosto de 2026.
O Pentágono deverá formar ainda um conselho consultivo com especialistas externos para orientar o programa de saúde e desempenho humano.
O ponto central da controvérsia não está na utilidade do exame para pessoas com sintomas, mas na decisão de testar de forma generalizada todos os militares a partir de determinada idade.
Cinco dos seis especialistas em saúde masculina consultados pela Reuters demonstraram preocupação com a falta de evidências de que uma triagem desse tamanho aumentará a capacidade de combate das Forças Armadas.
Um número isolado não define força
Os níveis de testosterona variam ao longo do dia e podem mudar conforme idade, sono, alimentação, estresse, condição clínica e método utilizado pelo laboratório.
Por isso, não existe um único número capaz de medir automaticamente força, agressividade ou aptidão militar.
Embora faixas próximas de 300 a 1.000 nanogramas por decilitro sejam frequentemente usadas como referência, os limites variam entre laboratórios e diretrizes médicas.
A Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos recomenda diagnosticar deficiência apenas quando o paciente apresenta sintomas compatíveis e resultados consistentemente baixos, confirmados por mais de um exame matinal.
A entidade também se posiciona contra o rastreamento rotineiro de homens saudáveis na população geral.
A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, informa que produtos de testosterona são aprovados para homens com níveis baixos associados a condições médicas específicas, não como recurso geral de aumento de desempenho.
Stanaland argumenta que, dentro de uma faixa considerada normal, um resultado mais elevado não transforma necessariamente uma pessoa em alguém mais forte.
Treinamento, descanso, alimentação e preparação física exercem influência muito mais direta sobre o desempenho de um militar do que a simples posição de seu resultado dentro da faixa laboratorial.
Testosterona não funciona como botão de agressividade
A associação popular entre testosterona e comportamento violento também não aparece na literatura científica de maneira tão forte quanto costuma ser apresentada.
Uma metanálise publicada em 2001 reuniu 45 estudos independentes, com 9.760 participantes, e encontrou uma correlação positiva, porém fraca, entre testosterona e agressividade.
A correlação média ponderada encontrada pelos pesquisadores foi de 0,14, resultado que está muito distante de demonstrar que o hormônio determina sozinho o comportamento agressivo.
Contexto social, disputa por status, pressão de grupo, experiências anteriores e percepção de ameaça também interferem na forma como uma pessoa reage.
Além disso, situações competitivas e comportamentos agressivos podem alterar temporariamente os níveis hormonais, o que dificulta estabelecer uma relação simples de causa e efeito.
A rotina militar pode reduzir o hormônio
A maior ironia da iniciativa está nas próprias condições enfrentadas por parte dos integrantes das Forças Armadas.
Privação de sono, treinamento prolongado, déficit energético, estresse crônico e exposição a explosões podem reduzir temporariamente a testosterona.
Um estudo publicado em 2020 analisou dois grupos de Rangers do Exército dos Estados Unidos, com 76 e 44 participantes, e encontrou queda significativa nos níveis de testosterona após períodos de perda de sono durante treinamentos militares.
Outra linha de pesquisa identificou entre operadores de forças especiais um conjunto de problemas denominado “Síndrome do Operador”.
A condição envolve fatores interligados como traumatismos cerebrais, alterações endócrinas, distúrbios do sono, dores crônicas, estresse, dificuldades cognitivas e problemas de saúde mental.
O estudo que descreveu esse quadro em 2020 baseou-se em consultas com mais de 50 operadores de forças especiais e alertou que esses militares formam uma população submetida a circunstâncias extremas, que não representam necessariamente toda a tropa.
Reposição hormonal também possui riscos
A terapia pode ser indicada para pacientes que apresentam deficiência confirmada e sintomas clínicos, mas não funciona como um suplemento comum.
Entre as preocupações estão supressão da produção natural do hormônio, redução da fertilidade, aumento do hematócrito, acne, queda de cabelo, alterações na próstata e elevação da pressão arterial.
A Sociedade de Endocrinologia recomenda que a reposição não seja iniciada em homens que pretendem ter filhos no futuro próximo.
Em 2025, a FDA retirou dos rótulos a advertência máxima sobre aumento do risco de infarto e acidente vascular cerebral após analisar novos estudos.
A agência, porém, passou a exigir advertências sobre elevação da pressão arterial nos produtos de testosterona.
Política hormonal chegou aos tribunais
A nova iniciativa também reacendeu a discussão sobre o tratamento dispensado a militares transgêneros.
Em julho de 2026, a juíza federal Ana Reyes pediu explicações sobre as diferenças médicas e administrativas entre a testosterona oferecida a militares cisgêneros e a terapia hormonal utilizada por homens transgêneros.
O questionamento ocorreu dentro da disputa judicial sobre as restrições impostas pelo governo de Donald Trump ao serviço militar de pessoas trans.
A comparação, contudo, exige cuidado.
Embora os medicamentos possam pertencer à mesma classe hormonal, as indicações clínicas, dosagens, objetivos terapêuticos e contextos médicos não são necessariamente iguais.
Enquanto o debate avança, o Pentágono ainda não detalhou publicamente quais valores serão classificados como deficientes, como resultados alterados serão confirmados nem se o protocolo será aplicado da mesma maneira a homens e mulheres.

