Brian Murphy comprou uma Nissan Frontier 2007 zero quilômetro em junho de 2007, por cerca de US$ 20 mil, com um objetivo declarado desde o primeiro dia: rodar 1 milhão de milhas, o equivalente a 1,6 milhão de quilômetros. O entregador autônomo, morador da zona rural de Ringwood, no condado de McHenry, em Illinois, cruzou essa marca por volta das 18h de 27 de janeiro de 2020, em menos de 13 anos de uso, segundo a coluna publicada por Mark Brown no Chicago Sun-Times em 1º de agosto de 2020 e os dados divulgados pela própria Nissan.
O feito não veio de estrada aberta. Murphy acumulou a quilometragem quase toda no trânsito e no clima de Chicago, com jornadas de 12 a 13 horas por dia, cinco dias por semana, entregando peças e suprimentos de copiadoras. A recompensa apareceu meses depois: em 4 de agosto de 2020, a Nissan entregou a ele uma Frontier zero na mesma concessionária onde a picape antiga havia sido comprada, e a veterana foi aposentada na fábrica que a montou, em Smyrna, no Tennessee.
De 483 a 644 quilômetros por dia, cinco dias por semana
A rotina começava cedo e não tinha atalho. Todo dia útil, às 5h45, Murphy saía de casa em Ringwood rumo a uma base em Geneva, onde carregava peças e suprimentos de copiadoras antes de seguir para o centro de Chicago. Ao meio-dia voltava para Geneva e pegava mais compromissos.
Antes da pandemia, o volume diário ficava entre 300 e 400 milhas, algo entre 483 e 644 quilômetros, cinco vezes por semana. Somando tudo, o entregador autônomo passou mais de 50 mil horas atrás do volante para chegar ao milhão de milhas. É o equivalente a quase seis anos ininterruptos dentro da cabine, contando dia e noite.
A comparação com a média nacional ajuda a entender o tamanho da distorção. Murphy rodava cerca de 77 mil milhas por ano, aproximadamente 124 mil quilômetros. O Departamento de Transportes dos Estados Unidos calcula que homens da faixa etária dele dirigem, em média, 15.859 milhas anuais, o que dá pouco mais de 25 mil quilômetros. Ele fazia quase cinco anos de quilometragem alheia a cada doze meses.
A picape mais simples do catálogo
Não havia nada de especial na configuração escolhida. A Frontier de Murphy é uma King Cab de tração traseira, com motor quatro cilindros de 2.5 litros e câmbio manual de cinco marchas, na cor vermelha, versão de entrada da linha. Nenhum pacote de luxo, nenhuma eletrônica sofisticada.
O veículo foi comprado zero quilômetro em junho de 2007, na concessionária M’Lady Nissan, em Crystal Lake, Illinois, por cerca de US$ 20 mil. A meta do milhão de milhas já estava traçada na hora da compra, e a experiência anterior dava alguma base para a aposta: a picape antiga do entregador autônomo, uma Chevrolet S-10, tinha chegado a 413 mil milhas, cerca de 665 mil quilômetros.
Havia também um cálculo de bolso por trás da teimosia. Murphy tinha aberto o próprio negócio poucos anos antes e concluiu que aguentar firme com o mesmo veículo evitaria a despesa de trocar de caminhonete a cada poucos anos. A conta que ele fez em 2007 acabou economizando três ou quatro trocas de carro ao longo de treze anos.
A lista de peças que aguentou o impossível
O item mais impressionante do histórico é a embreagem. A peça original resistiu a 801 mil milhas, aproximadamente 1,29 milhão de quilômetros, em um veículo de câmbio manual usado em trânsito urbano, que é o cenário mais cruel possível para esse componente.
O resto da lista segue o mesmo padrão. A bomba d’água original durou 607 mil milhas, cerca de 977 mil quilômetros. O alternador chegou a 436 mil milhas, aproximadamente 702 mil quilômetros, e o radiador aguentou algo parecido. Murphy trocou os dois novamente por volta das 800 mil milhas, apenas por precaução, sem que tivessem falhado.
Existem ainda duas peças que raramente entram nessas listas. A corrente de comando foi substituída de forma preventiva aos 700 mil milhas, cerca de 1,13 milhão de quilômetros, e o banco do motorista resistiu a meio milhão de milhas, mais de 800 mil quilômetros, antes de precisar ser trocado. O motor quatro cilindros e o câmbio manual originais, esses, seguiram no veículo até o fim da jornada.
Troca de óleo a cada 16 mil quilômetros, feita por ele mesmo
A manutenção seguia um método simples e rígido. Murphy fazia as próprias trocas de óleo a cada 10 mil milhas, cerca de 16 mil quilômetros. O intervalo parece longo no papel, mas o volume diário fazia com que, na prática, o óleo fosse trocado a cada seis semanas.
Para o restante da manutenção, ele recorria sempre à mesma concessionária onde comprou o veículo, mantendo o histórico concentrado em um único lugar durante treze anos. Rodar 1,6 milhão de quilômetros exigiu menos truque de oficina e mais disciplina de calendário.
O jeito de dirigir completa a explicação. “Sou um motorista muito conservador”, resumiu Murphy ao Sun-Times, dizendo que sempre cuidou bem do veículo. A ficha de trânsito reforça o argumento: segundo a Nissan, o entregador autônomo não acumulou nenhuma infração de movimento ao longo de todos esses quilômetros.
Nunca passou cera, nunca comprou antiferrugem
Aqui está a parte que contraria o manual do bom proprietário. Murphy lavava a picape uma vez por semana, mas nunca comprou o pacote de proteção contra ferrugem oferecido na compra. A garagem onde o veículo dormia não tem aquecimento, detalhe nada trivial em um estado que passa meses abaixo de zero e usa sal nas ruas.
E tem o dado que surpreendeu até o jornalista que o entrevistou: ele nunca passou cera na lataria, nem uma única vez em treze anos. Mesmo assim, a picape chegou ao fim da jornada com aparência considerada notavelmente boa, com ferrugem visível apenas no engate de reboque e na roda traseira direita.
O contraste sugere uma conclusão incômoda para quem gasta com estética automotiva. No caso dele, o que preservou o veículo foi a regularidade da manutenção mecânica, não o cuidado com a pintura.
Um milhão de milhas sem ligar o GPS
O detalhe que mais chama atenção não está no motor. Segundo a Nissan, Murphy nunca usou GPS ou navegação por satélite para guiá-lo em nenhuma daquelas milhas. A rota inteira, ano após ano, saiu da memória e do conhecimento acumulado sobre as ruas de Chicago e da região metropolitana.
Vale dimensionar a distância percorrida sem uma seta na tela. Um milhão de milhas equivale a aproximadamente 1,609 milhão de quilômetros, ou cerca de 40 voltas completas ao redor da Terra pela linha do Equador. Também dá mais de duas idas e voltas até a Lua, se a viagem fosse em linha reta.
O entregador autônomo começou na profissão décadas antes de existir aplicativo de rota. Ele havia saído de uma carreira no mundo corporativo e montou o próprio serviço de entregas, atividade que pretendia manter até os 70 anos, segundo declarou em 2020, quando tinha 63.
O odômetro que travou em 999.999
A chegada ao número redondo teve um anticlímax. O odômetro digital da Frontier não tem casa para o sétimo dígito e parou definitivamente em 999.999 milhas, em 27 de janeiro de 2020. Quem continuou contando foi o hodômetro parcial, usado para comprovar que a marca havia sido ultrapassada.
Murphy admitiu ao Sun-Times que ficou decepcionado por não ver o número virar. Depois disso, rodou apenas cerca de 500 milhas adicionais, algo em torno de 805 quilômetros, e encerrou a vida útil da picape no serviço.
O intervalo até a substituição teve um problema de calendário. A Nissan anunciou o presente ainda em fevereiro de 2020, durante a apresentação da nova geração no Salão do Automóvel de Chicago, mas a produção do modelo 2020 atrasou por causa da pandemia. Enquanto esperava, o entregador autônomo trabalhou com uma van de entregas cedida pela montadora.
A picape zero e o museu no Tennessee
A troca aconteceu em 4 de agosto de 2020, na mesma concessionária de Crystal Lake onde a história começou treze anos antes. Murphy entregou as chaves da veterana e saiu com uma Frontier 2020 SV King Cab 4×4, equipada com motor V6 de 3.8 litros, 310 cavalos e câmbio automático de nove marchas.
O contraste entre os dois veículos resume a mudança de época. Saiu um quatro cilindros manual sem eletrônica de navegação, entrou uma picape com quase o triplo de potência e transmissão automática. Depois de treze anos trocando marcha no trânsito de Chicago, o motorista trocou o pedal da embreagem por um seletor.
A picape antiga não virou sucata. Ela foi enviada para a fábrica da Nissan em Smyrna, no Tennessee, exatamente a unidade onde havia sido montada em 2007, para ficar em exposição. É um retorno pouco comum: o veículo terminou a carreira no mesmo galpão onde começou.
O Camaro de 1969 que continua esperando
Fora do trabalho, Murphy é apaixonado por carros de um jeito bem diferente do utilitário. Ele mantém em restauração um Chevrolet Camaro Z28 de 1969, o primeiro carro que teve na vida, comprado usado quando ele tinha 16 anos.
O detalhe fecha o retrato de uma relação longa com máquinas. De um lado, um clássico americano guardado e restaurado com calma. Do outro, uma picape de entrada usada até o limite físico, submetida a jornadas de 13 horas por dia durante mais de uma década. Sobre a despedida, Murphy disse que sentiria muita falta do veículo, que classificou como muito bom para ele.
O que essa história diz sobre trocar de carro
Treze anos, 1,6 milhão de quilômetros, uma embreagem que durou quase 1,3 milhão, um motor original e nenhuma camada de cera. A trajetória do entregador autônomo de Illinois desmonta a ideia de que veículo bom é veículo novo e coloca a discussão onde ela costuma incomodar: no hábito de manutenção de quem dirige.
E você, o que acha? Trocar de carro a cada poucos anos é bom negócio ou desperdício de dinheiro, considerando que uma picape simples aguentou 1,6 milhão de quilômetros com manutenção em dia? Qual foi a maior quilometragem que você já viu em um carro de verdade, e ele estava inteiro ou caindo aos pedaços? Comente aí, principalmente se você roda muito a trabalho e tem a própria lista de peças que já trocou.

