Governo Trump planejou enviar emissários ao Brasil para questionar o processo eleitoral; Itamaraty negou os vistos

fernando bianchi
Governo Trump planejou enviar emissários ao Brasil para questionar o processo eleitoral; Itamaraty negou os vistos

O governo dos Estados Unidos planejou questionar publicamente o processo eleitoral brasileiro e a segurança das urnas eletrônicas do país enquanto a disputa pelas eleições presidenciais no Brasil entra em um momento mais crítico.

Segundo uma reportagem do jornal The Washington Post, o governo de Donald Trump chegou a planejar o envio de dois “emissários de alto escalão” do Departamento de Estado norte-americano ao país para endossar discursos contra a integridade e justiça do sistema eleitoral brasileiro.

Conforme revelou o jornal, a delegação seria composta por Riley M. Barnes, secretário-assistente de Estado, e Samuel Samson, secretário-adjunto assistente do Departamento de Estado. A viagem estaria programada para poucas semanas antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. Eles pretendiam viajar a Brasília para ter reuniões com autoridades eleitorais.

O principal alvo dos enviados de Trump seriam as urnas eletrônicas brasileiras, que são constantes alvos de ataque da extrema direita no país — repetindo o padrão dos EUA, que não tem votação totalmente eletrônica, mas também teve a legitimidade do pleito presidencial seguidamente questionada pelos eleitores de Trump quando ele não conseguiu a reeleição diante de Joe Biden, em 2020.

Na última terça-feira (21), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro em uma reunião com embaixadores estrangeiros em Brasília e chegou a afirmar que urnas brasileiras são fabricadas por uma empresa venezuelana — o que já foi desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na ocasião, Flávio disse que há “documentação da própria CIA apontando sobre a possibilidade de vulnerabilidade do sistema eletrônico de votação“.

O discurso é reconhecidamente endossado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que também não conseguiu se reeleger em 2022 em meio a frequentes ataques ao sistema eleitoral. O Secretário de Estado, Marco Rubio, é um dos principais aliados da família Bolsonaro em Washington.

Vistos negados

Segundo apurou a colunista Janaína Azevedo, do UOL, o governo brasileiro negou o visto aos dois representantes de Trump após tomar conhecimento do objetivo de sua viagem ao Brasil. O pedido de visto foi protolocado um dia antes do discurso de Flávio Bolsonoaro a embaixadores em um evento em Brasília.

Segundo informações apuradas com fontes brasileiras, o governo brasileiro foi informado do caráter “inusitado” da missão dos dois funcionários e decidiu negar os vistos.  O Brasil tem tradição de receber observadores internacionais nas eleições, mas a avaliação é que os norte-americanos não são observadores, e na verdade tinham “outro papel” no processo eleitoral.

Ofensiva norte-americana

Na avaliação do Planalto, a ameaça às eleições não está no sistema eleitoral, reconhecido internacionalmente, mas sim em inicativas destinadas a influenciar a opinião pública antes da votação.

Os Estados Unidos, na figura do presidente Trump, têm realizado diversas ofensivas para aumentar a pressão política sobre o Brasil. A intensidade dessas medidas fez com que analistas classificassem este como um dos períodos mais delicados da relação bilateral nas últimas décadas.

Recentemente o governo Trump impôs uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, atingindo setores como máquinas agrícolas, madeira, etanol e produtos têxteis. Alguns itens estratégicos, como componentes aeronáuticos e determinados produtos agrícolas, ficaram de fora para reduzir impactos sobre empresas e consumidores americanos.

Poucos dias depois, Washington anunciou uma nova rodada de tarifas relacionadas a alegações de uso de trabalho forçado em cadeias produtivas internacionais, fazendo com que parte das exportações brasileiras passasse a enfrentar uma carga tarifária ainda maior.

O governo Trump também tem feito críticas públicas a decisões das instituições brasileiras, especialmente relacionadas a:

  • Regulação das plataformas digitais;
  • Liberdade de expressão nas redes sociais;
  • Decisões judiciais envolvendo empresas americanas de tecnologia;
  • Tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tenativa de golpe.

O governo Trump tem utilizado investigações comerciais e instrumentos previstos na legislação americana para pressionar governos em diferentes áreas, e o Brasil tornou-se um dos principais alvos dessa estratégia em 2026. Para analistas, essa investida é relacionada à tentativa de retomar a hegemonia política da direita na América do Sul e influenciar o processo eleitoral em outros países após o retorno de Turmp apo poder

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