Escalar um negócio digital para fora do Brasil exige muito mais do que apenas traduzir o idioma de uma plataforma. Demanda inteligência de mercado, adaptação cultural e, acima de tudo, a preservação da essência que fez a marca dar certo em primeiro lugar. A trajetória recente da BOOM, nova identidade da antiga Academia Foguete, é uma verdadeira aula corporativa sobre como estruturar a internacionalização de um serviço digital utilizando a tecnologia como sua principal aliada.
Conhecida por atrair grandes influenciadores e criar uma legião de alunos fiéis, a startup de fitness sempre teve um diferencial claro em relação às metodologias tradicionais. Enquanto a gigante norte-americana Peloton construiu seu império atrelando a venda de conteúdo a hardwares caros — como esteiras e bicicletas ergométricas —, a empresa brasileira focou na acessibilidade imediata. O produto central nunca foi o equipamento, mas sim o treino focado no próprio peso do corpo. Como pontua Stelio Belchior, CEO da companhia, o grande concorrente da marca não são as redes tradicionais de academia, mas sim a inércia e o sofá da sala.
No entanto, para alçar voos internacionais, barreiras práticas precisavam ser rompidas. O termo “Foguete” gerava um atrito imediato de pronúncia no exterior, travando o reconhecimento de marca. A solução encontrada foi um profundo processo de reposicionamento corporativo que durou nove meses e culminou na adoção do nome BOOM, um termo universal e de alto impacto. Com a nova roupagem, a startup estruturou um plano agressivo de expansão, ancorado em um investimento de R$ 20 milhões previstos para os próximos 18 meses, com o objetivo de fisgar o público estrangeiro surfando na popularidade da cultura latina.
O grande ativo da empresa sempre foi o seu componente humano: a energia contagiante dos professores, uma curadoria musical que valoriza ritmos como o funk e o samba, e a forte interação da comunidade. Os alunos abrem suas câmeras, trocam experiências e criam laços que frequentemente evoluem para encontros presenciais. É o que a liderança da startup define como o nosso “borogodó”, um carisma genuinamente brasileiro e altamente comercializável.
Mas como replicar essa autenticidade em inglês ou espanhol sem soar artificial?
Em vez de forçar os instrutores originais a ministrarem aulas em um idioma não nativo — o que, segundo a própria diretoria, destruía a fluidez e a essência cativante dos treinos —, a empresa encontrou a resposta na Inteligência Artificial. A BOOM passou a utilizar ferramentas de ponta em dublagem por IA. Essa aplicação tática da tecnologia permite que a plataforma preserve a expressão corporal, a empolgação e o ritmo intenso do instrutor brasileiro, enquanto o aluno norte-americano ou latino-americano ouve as instruções em sua língua materna de forma impecável. É a inovação resolvendo um gargalo emocional e operacional simultaneamente.
Além do rebranding e da internacionalização orientada por IA, a evolução da startup passa por uma sofisticação completa do produto. O movimento atual visa deixar o rótulo de “academia virtualizada” no passado para consolidar a marca como um produto digital de alta performance.
Migrando de um ambiente web para um aplicativo próprio, a BOOM integra agora mecânicas complexas de gamificação. Inspirando-se no engajamento orgânico do Duolingo e na competitividade saudável da comunidade do Strava, a estratégia de Growth foca em reter usuários através de sistemas de recompensas, evolução constante e uma experiência de usuário (UX) estimulante.
O caso da BOOM reflete uma mentalidade indispensável para a nova economia: a capacidade de pivotar operações sem descaracterizar o DNA da companhia. Para tomadores de decisão e gestores, a lição é nítida. A adoção de novas tecnologias não deve padronizar ou esfriar as relações com o cliente. Pelo contrário, ela deve atuar como o veículo que permite que a sua maior força competitiva ganhe o mundo com eficiência e escalabilidade. Internacionalizar não significa apagar as suas origens, mas sim utilizar a inovação para fazer o mercado global consumir exatamente o que você tem de melhor.




