Durante os últimos dois anos, o mercado de tecnologia se acostumou a um roteiro previsível: grandes players de infraestrutura — nuvem e chips — injetam bilhões em laboratórios de IA, que por sua vez se comprometem a comprar quantidades colossais de poder computacional desses mesmos fornecedores. O capital sai de um bolso e entra no outro, alimentando valuations estratosféricos. A esse fenômeno, os analistas deram um nome que dispensa grandes explicações: o “ciclo do dinheiro infinito” da inteligência artificial.
Acontece que, como toda engrenagem que gira sem atrito aparente, esse modelo começa a dar sinais de que pode travar. E o ruído mais estridente vem justamente do centro do ecossistema: a OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT.
Segundo reportagem do The Wall Street Journal, a companhia liderada por Sam Altman ficou abaixo de metas internas de crescimento, e a própria CFO, Sarah Friar, teria alertado que, se a receita não acelerar, a OpenAI pode enfrentar dificuldades para honrar compromissos futuros de computação.
Para um mercado que precificou a expansão contínua como certeza absoluta, o sinal passou do verde direto para o amarelo.
Os números da OpenAI são, à primeira vista, espetaculares — e é exatamente por isso que o alerta soa tão grave. Em 2025, a empresa gerou algo em torno de US$ 13 bilhões em receita, superando inclusive suas próprias projeções de US$ 10 bilhões. A cifra mais do que triplicou em relação ao ano anterior, impulsionada pela adoção corporativa e por ferramentas de código.
O problema está do outro lado da equação. No mesmo período, a companhia queimou cerca de US$ 8 bilhões. Para 2026, a meta é faturar US$ 30 bilhões — mas com uma queima de caixa estimada em US$ 25 bilhões. O Goldman Sachs calcula que, ainda em 2025, cada dólar de receita da OpenAI correspondia a aproximadamente US$ 0,69 de prejuízo.
A conta é simples e preocupante: o crescimento da receita, embora vigoroso, não está conseguindo acompanhar o ritmo da gastança. E os compromissos assumidos com fornecedores de infraestrutura — Oracle, Microsoft e Amazon — já ultrapassam a marca de US$ 1,15 trilhão.
“A perda de receita importa mais do que o mercado está precificando”, resumiu Harrison Rolfes, analista sênior do PitchBook.
A fragilidade não está apenas nos números da OpenAI. Ela é, na verdade, uma característica do próprio modelo de negócios que sustenta a atual corrida pela IA. Trata-se dos chamados “circular deals” (negócios circulares), que especialistas do Morgan Stanley compararam, em outubro do ano passado, ao que varejistas fizeram com aluguéis comerciais durante a pandemia: contratos que pareciam irrevogáveis, mas que foram renegociados quando o cenário financeiro apertou.
Na prática, funciona assim: a Nvidia investe bilhões na OpenAI. A OpenAI usa parte desse dinheiro para comprar chips da… Nvidia. A Microsoft, por sua vez, investe na OpenAI, que contrata serviços de nuvem da… Microsoft. O dinheiro circula em um circuito fechado — sai do caixa do investidor, passa pelo laboratório de IA e retorna ao caixa do investidor na forma de contratos de infraestrutura, com emissão de nota fiscal no meio do caminho.
A Nvidia não esconde o jogo: espera reconhecer US$ 13 bilhões em receita vinda da OpenAI apenas em 2026, reinvestindo cerca de US$ 10 bilhões de volta na companhia — uma dinâmica que um analista descreveu como “um fornecedor de alimentos que banca os restaurantes que compram seus ingredientes”.
O risco é que esse castelo de cartas comece a balançar. Se a OpenAI — o laboratório de IA mais emblemático do mundo — tropeça no crescimento de receita, os compromissos de compra de infraestrutura podem ser renegociados, gerando um impacto em cadeia sobre fornecedores, neoclouds e todo o ecossistema de venture capital que gravita ao redor desses grandes players.
Enquanto a OpenAI lida com suas próprias metas, o cenário competitivo não dá trégua. De acordo com levantamento da Menlo Ventures, a Anthropic — rival que desenvolve o Claude — já detém 32% de participação no mercado corporativo de IA, contra 25% da OpenAI e 20% do Google. Em um intervalo de dois anos, a OpenAI viu sua fatia no segmento encolher de 50% para 25%.
A resposta da companhia de Sam Altman tem sido uma guinada rumo ao pragmatismo. A CFO Sarah Friar anunciou que 2026 será o ano da “adoção prática”, com foco em produtos que gerem receita de forma consistente, em detrimento de iniciativas meramente experimentais. A empresa, que já ultrapassou a marca de 1 milhão de clientes corporativos globalmente — incluindo um escritório recém-aberto no Brasil —, sabe que o caminho para justificar seu valuation de US$ 852 bilhões passa, necessariamente, pelo segmento B2B.
Em fevereiro de 2026, a OpenAI concluiu uma rodada de captação recorde de US$ 122 bilhões, abrindo as portas inclusive para investidores de varejo. A operação é amplamente interpretada como o último grande passo antes de um IPO esperado para o fim deste ano. Para os investidores, a mensagem é clara: o relógio da rentabilidade está correndo.
O imbróglio vivido pela OpenAI oferece três alertas valiosos para quem empreende ou gere negócios na economia digital — especialmente no universo B2B.
O modelo dos “circular deals” não é exclusivo das big techs. Startups que vendem para os mesmos fundos que as investem, ou que inflam métricas com contratos-cruzados entre parceiros, operam sob a mesma lógica: a de um ecossistema que se retroalimenta sem que haja, necessariamente, geração de valor real para o cliente final.
A aposta de crescimento a qualquer custo, que marcou a era do dinheiro barato para startups, encontrou seu equivalente na economia da IA. O sinal amarelo da OpenAI mostra que mesmo os players mais bem capitalizados podem ver suas projeções ruírem quando a receita orgânica não acompanha os compromissos fixos.
Tanto a OpenAI quanto a Anthropic estão concentrando esforços no segmento corporativo. Para as empresas brasileiras, isso significa um leque cada vez maior de soluções de IA acessíveis — mas também a necessidade de escolher parceiros que tenham sustentabilidade financeira para manter suas soluções no ar ao longo do tempo.
O “ciclo do dinheiro infinito” da inteligência artificial não acabou. Mas a vacilada da OpenAI deixa evidente que ele não é, nunca foi e jamais será infinito de verdade. Para investidores, fornecedores, concorrentes e clientes corporativos, o recado é o mesmo: é hora de separar o que é valuation baseado em narrativa circular do que é, de fato, negócio sustentável.




