Não é fácil operar um negócio no setor de supermercados. O varejo alimentar tem margens apertadas, concorrência crescente e consumidores que trocam de loja por questão de centavos. No interior de São Paulo, uma rede regional conseguiu ganhar escala sem abandonar uma política que pesa diretamente no caixa: dividir parte do lucro com os funcionários.
O Savegnago faturou 7,9 bilhões de reais e se tornou o maior grupo supermercadista do interior paulista. Fundada em 1976, em Sertãozinho, a empresa reúne 64 supermercados, 11 unidades do Paulistão Atacadista e mais de 14 mil funcionários em 23 municípios.
E todo o ano, divide 25% do resultado líquido aos funcionários, em dois pagamentos. Um em julho, referente ao primeiro semestre, e outro em janeiro, referente ao segundo. Segundo Chalim Savegnago, diretor-presidente da empresa, a prática existe desde 1978, dois anos depois da fundação, e vale para todas as funções, de açougueiros a gerentes de loja.
A ação faz parte de uma estratégia de retenção de funcionários, assunto delicado no setor. E não para por aí. A empresa também já adotou escala de trabalho 5×2 para todas as suas lojas.
“A nossa empresa tem dois olhos: um para olhar para os funcionários, outro para olhar para os clientes”, afirma Chalim.
Ao falar sobre o olhar para o cliente, outro exemplo que pode ir na contramão do setor. A empresa não aposta em marcas próprias para crescer.
Ao entrar numa cidade nova, a rede mapeia as marcas líderes daquela região e as coloca na prateleira, em vez de empurrar um rótulo próprio.
“Nós queremos vender para os nossos clientes os produtos que eles gostam de comprar. É mais fácil do que convencer eles a comprar o que você quer vender”, afirma.
Para os próximos anos, o grupo mantém o plano de expansão nas duas bandeiras, com novas lojas do Paulistão previstas para 2026 e uma unidade do Savegnago no Shopping Dom Pedro, em Campinas. E promete preservar o modelo de gestão que sustentou o crescimento até aqui.
A recusa da marca própria vem acompanhada de um investimento em dados. Segundo a empresa, 85% das vendas são identificadas por CRM, sistema que registra o histórico de compras de cada cliente e orienta o sortimento de cada loja.
É esse acompanhamento que permite adaptar o mix região por região. O café líder em Ribeirão Preto não é o mesmo de Campinas, e a rede evita levar a marca de uma praça para outra onde ela não é conhecida. “O cliente chega na loja e vai encontrar a mesma farinha de mandioca que ele costuma comprar”, afirma Chalim.
Como nasceu o rei do interior
A história do grupo começou com Aparecido Savegnago, pai de Chalim.
Em 1976, aos 46 anos, ele deixou o ramo de beneficiamento de arroz, em declínio com a chegada do arroz agulhinha vindo do Sul, e comprou um mercado de bairro de 300 metros quadrados em Sertãozinho, com dois caixas e seis funcionários.
A família não tinha experiência no varejo. Comprou a loja já abastecida e foi aprendendo o que vendia mais para repor o estoque.
Em 1978, dois anos depois, a rede dobrou o tamanho da primeira loja e passou a comprar outros mercados da cidade. No fim de 1979, já eram cinco unidades em Sertãozinho. A trajetória atravessou as crises das décadas seguintes e só acelerou de vez com a estabilização da economia, a partir do Plano Real, em 1994.

O crescimento seguiu uma lógica de expansão por ondas, sempre pelo interior. Primeiro a região de Ribeirão Preto, com foco em cidades acima de 45 mil habitantes. Depois a região de São Carlos, mirando municípios acima de 80 mil. A partir de 2017, a rede entrou na região de Campinas, com Sumaré, Piracicaba, Limeira, Hortolândia e a própria capital regional. Esse crescimento todo sem sair de São Paulo.
A cada praça nova, o mesmo método de mapear as marcas líderes locais em vez de impor um padrão único.
No fim de 2022, o grupo estreou no atacarejo com o Paulistão, em Rio Claro, e hoje soma 11 unidades do formato. Meio século depois da aposta do fundador, aquele mercado único de 300 metros quadrados virou uma das 20 maiores redes do país, e a maior do interior paulista, segundo o Ranking ABRAS 2026. O rei do interior.
Quais são os 10 maiores supermercados de São Paulo
1) Carrefour Brasil (Atacadão): faturamento de 123,5 bilhões de reais
2) GPA: faturamento de 20,6 bilhões de reais
3) Cencosud Brasil: faturamento de 10 bilhões de reais
4) Plurix: faturamento de 9,6 bilhões de reais
5) Tenda Atacado S.A.: faturamento de 8 bilhões de reais
6) Savegnago Supermercados: faturamento de 7,9 bilhões de reais
7) Sonda Supermercados: faturamento de 6,1 bilhões de reais
8) Pague Menos Comércio de Produtos Alimentícios: faturamento de 4,3 bilhões de reais
9) Comercial Zaragoza: faturamento de 4,3 bilhões de reais
10) Roldão: faturamento de 4 bilhões de reais
Discussão sobre jornada 5×2
O Savegnago se antecipou à discussão sobre redução de jornada. Depois de um teste-piloto no fim de 2025, a rede adotou a escala 5 por 2 em todas as lojas, incluindo o Paulistão, a partir do início de 2026. A jornada semanal segue em 44 horas, mas o funcionário passou a folgar dois dias após cinco de trabalho.
Segundo Chalim, a mudança foi absorvida sem repasse a preços. “Precisamos repor alguns funcionários aqui, ali, mas nada que fez mexer nos preços”, afirma. A escala, diz ele, elevou a satisfação da equipe.
Sobre uma eventual redução da jornada legal, o executivo é cauteloso e conecta o tema à margem apertada do varejo. “A gente é bem ajustado, não tem lucro líquido alto. É menos de 3% na última linha, então a gente tem que administrar isso”, afirma. Ele defende que, se a redução vier, seja aplicada de forma gradual, para o setor se acomodar sem pressão de custo.
