Uma residência entregue em 2018 na Costa Rica reuniu reciclagem, construção modular e trabalho voluntário ao transformar toneladas de plástico descartado em blocos encaixáveis usados na casa de uma mãe e do filho.
Uma casa que, vista da rua, se parecia com qualquer construção nova do bairro Lámparas, em Alajuelita, na Costa Rica, escondia um material incomum nas paredes.
Em vez de blocos convencionais, o imóvel utilizava peças encaixáveis produzidas com toneladas de resíduos plásticos reciclados.
A residência foi entregue em 26 de maio de 2018 a Cindy Mora e ao filho Fabrizio Jaen, que tinha seis anos na época.
A mãe havia economizado durante nove anos para comprar o terreno onde a construção foi erguida, mas não dispunha dos recursos necessários para levantar a casa.
Materiais e mão de obra foram fornecidos por uma iniciativa que reuniu a Procter & Gamble, a organização Hábitat para a Humanidade e a Urbarium.
Funcionários da empresa participaram da construção e somaram mais de 800 horas de trabalho voluntário, segundo os registros publicados na época.
Nove anos de economia garantiram o terreno da casa
Cindy trabalhava como auxiliar de serviços gerais e criava o filho.
Durante nove anos, guardou dinheiro para comprar um lote no bairro Lámparas, localizado no cantão de Alajuelita, na província de San José.
Ter o terreno era uma das condições necessárias para participar da iniciativa.
A seleção também considerava a situação socioeconômica da família e a possibilidade técnica de construir no local escolhido.
A casa não foi entregue como um imóvel comprado pronto em outro endereço.
Ela foi erguida no terreno adquirido por Cindy, permitindo que a família permanecesse na região onde já mantinha seus vínculos cotidianos.
Paredes usaram toneladas de plástico reciclado
As fontes da época apresentam uma pequena diferença no peso total dos resíduos.
A Teletica informou que a casa incorporou 7,5 toneladas de garrafas e embalagens, enquanto outras publicações mencionaram aproximadamente sete toneladas.
A quantidade estava concentrada nos blocos usados para formar as paredes.
Isso não significa que todos os componentes da residência fossem plásticos, pois fundação, cobertura, instalações, portas, janelas e acabamentos exigiam outros materiais.
Os resíduos foram processados e transformados em blocos modulares.
Conforme a imprensa costarriquenha, a mistura reaproveitava itens como garrafas, embalagens, sacolas e peças plásticas descartadas de veículos.
Uma reportagem publicada no ano seguinte indicou que a casa utilizou aproximadamente 850 blocos.
Esse número, porém, não aparece detalhado nas matérias iniciais sobre a entrega e deve ser atribuído ao acompanhamento posterior do projeto.
O reaproveitamento evitou que o material seguisse para aterros, terrenos, rios ou outras áreas do ambiente.
Em 2018, dados do Ministério da Saúde da Costa Rica citados pelo jornal La Nación indicavam que o país descartava cerca de 564 toneladas de plástico por dia e reciclava apenas 14 toneladas.
Blocos encaixáveis formaram as paredes da residência
O sistema construtivo empregado era chamado de Bloqueplas e foi apresentado na Costa Rica pela Ekojunto.
As peças tinham encaixes que permitiam sobrepor os blocos para formar as paredes, em um processo comparado ao de brinquedos de montar.
Na prática, os componentes possuíam saliências e rebaixos que ajudavam a alinhar as peças.
À medida que as fileiras eram empilhadas, formavam-se os fechamentos da residência.
O sistema não eliminava todas as etapas tradicionais de uma obra.
Ainda era necessário preparar o terreno, executar a base, instalar reforços, construir o telhado e realizar os serviços elétricos, hidráulicos e de acabamento.
A diferença principal estava na montagem das paredes.
De acordo com a descrição técnica do Bloqueplas, os blocos formam um sistema modular com elementos encaixáveis e reforços complementares, que podem incluir perfis metálicos.
Esse método reduz a necessidade de cortar peças no canteiro e permite desmontar parte da estrutura sem quebrar os blocos.
A rapidez da montagem, entretanto, depende do projeto, da preparação da fundação, do tamanho da equipe e das condições do local.
Trabalho voluntário somou mais de 800 horas
Mais de 800 horas de trabalho foram atribuídas aos funcionários da P&G envolvidos na obra.
O número representa a soma do tempo dedicado pelos participantes, e não uma construção ininterrupta de 800 horas.
A empresa atuou por meio de um programa de responsabilidade social desenvolvido em parceria com Hábitat para a Humanidade.
A organização já mantinha uma cooperação internacional com a companhia para mobilizar funcionários e apoiar projetos habitacionais em diferentes países.
A Urbarium também aparece entre as entidades vinculadas à iniciativa, enquanto a Ekojunto foi associada ao fornecimento e à aplicação do sistema construtivo.
As fontes consultadas não detalham a divisão financeira completa entre as organizações.
Também não foi localizado um orçamento público da residência.
Uma publicação local estimou o imóvel em 15 milhões de colones costarriquenhos, mas não esclareceu se o valor incluía terreno, materiais doados, instalações, acabamentos e trabalho voluntário.
Por isso, não é possível calcular quanto a casa custaria se todos os materiais e serviços fossem contratados pelo preço de mercado.
A doação e o voluntariado alteraram de forma significativa o custo efetivamente assumido pela família.
Casa de plástico recebeu acabamento convencional
Depois de montadas, as paredes receberam revestimentos e pintura.
O resultado exterior não deixava evidente que os fechamentos haviam sido construídos com plástico reciclado.
Essa aparência ajudava a afastar a ideia de que a família receberia uma estrutura provisória ou semelhante a um abrigo emergencial.
As imagens publicadas em 2018 mostram uma residência com fachada, telhado, portas, janelas e espaços internos definidos.
A possibilidade de receber acabamentos convencionais é uma das características apresentadas pelos responsáveis pelo sistema.
Revestimentos também podem proteger as peças da exposição direta e adaptar a aparência do imóvel ao entorno.
As matérias disponíveis não informam a área total da casa, a quantidade de dormitórios, a espessura das paredes ou o desempenho medido diante de calor, umidade, fogo e ruído.
Também não foram localizados relatórios públicos com ensaios específicos realizados na residência de Cindy.
Afirmações sobre resistência, durabilidade ou vida útil precisam, portanto, ser separadas da experiência documentada da família.
Uma publicação posterior atribuiu ao sistema uma possível duração de até 200 anos, mas não apresentou o laudo técnico usado para sustentar essa estimativa.
Sem acesso aos testes e às condições de manutenção consideradas, o dado não pode ser tratado como vida útil comprovada daquele imóvel.
Tecnologia reaproveita diferentes tipos de plástico
Parte da dificuldade da reciclagem está na variedade de plásticos descartados.
Materiais com composições diferentes nem sempre podem ser processados juntos ou transformados novamente em embalagens com o mesmo nível de qualidade.
Sistemas construtivos como o Bloqueplas procuram usar parte desses resíduos em componentes duráveis.
O plástico é separado, processado e moldado para assumir uma nova função, deixando de circular como embalagem de curta utilização.
A fabricação dos blocos exige equipamentos industriais.
Portanto, a casa não foi construída simplesmente enchendo garrafas ou empilhando recipientes descartados no terreno.
Os resíduos foram convertidos em peças padronizadas, capazes de se conectar e formar um sistema de paredes.
Essa etapa distingue o projeto de técnicas artesanais que utilizam garrafas inteiras como preenchimento.
A produção industrial também exige controle da matéria-prima.
Contaminações, mistura inadequada de polímeros e variações no processo podem afetar as características das peças, razão pela qual a qualidade não depende apenas da quantidade de plástico reaproveitada.
Outros projetos usaram plástico na construção de moradias
A casa de Cindy não resultou, ao menos nos registros consultados, em uma sequência pública de residências idênticas construídas no mesmo bairro.
A tecnologia de incorporar plástico à construção, contudo, continuou aparecendo em outros projetos da Costa Rica.
Em 2019, o governo costarriquenho anunciou estudos para instalar uma fábrica de blocos feitos com resíduos plásticos.
A proposta previa o uso de materiais como embalagens de alimentos, sacolas, garrafas e recipientes descartáveis.
O comunicado oficial afirmava que uma residência de 42 metros quadrados poderia ter a estrutura modular levantada em aproximadamente uma semana por uma equipe de quatro pessoas.
A informação descrevia a tecnologia apresentada naquele projeto industrial e não o tempo comprovado da casa entregue a Cindy.
Outra iniciativa habitacional foi divulgada em 2021 por Hábitat para a Humanidade.
O projeto Valle Azul construiu 102 moradias na Costa Rica utilizando blocos de concreto que continham até 10% de plástico processado, totalizando 90 toneladas reaproveitadas.
Apesar da semelhança ambiental, o material era diferente.
As casas do Valle Azul utilizavam blocos de concreto com plástico incorporado, enquanto a residência de Alajuelita foi apresentada como construída com blocos modulares feitos de plástico reciclado.
Essa distinção impede afirmar que as 102 unidades foram uma expansão direta do projeto de Cindy.
Elas mostram, porém, que a incorporação de resíduos plásticos à habitação continuou sendo testada no país por meio de outras tecnologias e parcerias.

