Arquitetura sustentável na Índia reúne tijolos de cinza volante, paredes abertas acima das portas, terracota, jardins e corredores de vento para reduzir o abafamento, melhorar a ventilação natural e criar salas mais frescas em uma escola rural de 5,1 mil metros quadrados.
As faixas vermelhas e cinzentas que cobrem a Rane Vidyalaya parecem formar apenas um desenho decorativo. Porém, as cores revelam materiais diferentes, pois a escola rural da Índia mistura tijolos produzidos em olarias locais com peças cinzentas feitas a partir de resíduo industrial.
O prédio também usa as próprias paredes para enfrentar o calor. A parte superior permanece aberta por meio de janelas operáveis, permitindo que o ar quente suba e encontre uma saída, enquanto novas correntes de ar atravessam as salas.
A escola fica em Theerampalayam, perto de Tiruchirappalli, no estado de Tamil Nadu, e possui cerca de 5,1 mil metros quadrados. Shanmugam Associates, escritório de arquitetura responsável pelo projeto, apresenta a construção como uma obra concluída em 2018.
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Tijolos vermelhos e cinzentos revelam a origem dos materiais
Os tijolos vermelhos vieram de olarias da região. Eles foram intercalados com tijolos cinzentos de cinza volante, produzindo faixas visíveis nas paredes internas e externas da escola.
Essa combinação cria uma identidade marcante sem esconder a superfície sob camadas de acabamento. A diferença de cor permite que o visitante perceba a presença de dois materiais e entenda que as paredes fazem parte da proposta ambiental e arquitetônica.
As peças cinzentas são apresentadas como tijolos feitos com cinza volante reaproveitada de resíduo industrial ligado ao cimento. Já os tijolos vermelhos mantêm a relação da escola com métodos de construção encontrados na própria região.
O desenho, portanto, não surgiu apenas para deixar a fachada mais atraente. As faixas mostram como materiais locais e resíduos industriais controlados podem ocupar a mesma parede e formar uma linguagem visual fácil de reconhecer.
Cinza volante pode virar tijolo, mas não é qualquer tipo de cinza
A cinza volante é um pó muito fino gerado em processos industriais de queima. Em vez de ser descartado, esse material pode entrar na fabricação de cimento, concreto, blocos e tijolos, desde que passe por preparação e controle adequados.
Na Rane Vidyalaya, a cinza volante aparece nos tijolos cinzentos intercalados com os tijolos vermelhos. O material reciclado não foi despejado diretamente nas paredes, mas incorporado a peças produzidas para uso na construção.
Esse ponto evita uma interpretação perigosa. Cinzas industriais podem apresentar composições diferentes, dependendo da matéria que foi queimada, da temperatura e do processo que gerou o resíduo.
Por isso, não é seguro usar qualquer cinza em casas, escolas ou outras construções. O material precisa ser identificado, analisado e transformado por fabricantes capazes de controlar resistência, absorção de água e composição.
Técnica de templo do século VI inspirou as paredes da escola
A alternância de materiais recupera uma técnica observada no templo de Thiruvellarai, construção do século VI localizada na mesma região da Índia. Casas antigas com cerca de 50 anos também ajudaram a orientar o desenho.
Essas construções apresentavam paredes formadas por camadas. Pedras maiores ocupavam a base, enquanto materiais menores, tijolos, barro e placas eram colocados nas partes superiores.
A escola adaptou essa lógica para uma construção atual. No lugar de repetir todos os materiais antigos, os arquitetos combinaram tijolos vermelhos locais e tijolos cinzentos de cinza volante.
A referência histórica não transformou a escola em uma cópia de um templo. Ela serviu como ponto de partida para organizar materiais disponíveis, criar uma fachada própria e aproximar o prédio da arquitetura de Tamil Nadu.
Paredes abertas no alto ajudam a expulsar o ar quente
O ar aquecido dentro de uma sala tende a subir. Quando encontra um teto fechado e nenhuma saída superior, ele permanece acumulado, aumentando a sensação de abafamento.
Para evitar esse problema, as paredes da Rane Vidyalaya terminam na altura das vergas. A verga é a parte horizontal que fica acima de portas e janelas e sustenta a parede localizada sobre essas aberturas.
Acima dessa altura, o projeto instalou janelas que podem ser abertas. O ar quente sobe, atravessa essas aberturas e sai, enquanto o ar externo entra por outros pontos da sala.
Shanmugam Associates, escritório de arquitetura responsável pelo projeto, detalhou que essa solução aumenta a ventilação cruzada, nome dado à circulação criada quando o ar entra por um lado e sai pelo outro.
A escola não depende de uma única janela para ventilar as salas. A circulação foi pensada em diferentes alturas e direções, criando caminhos contínuos para o ar atravessar o prédio.
Terracota filtra o sol sem bloquear a circulação do ar
Algumas áreas receberam elementos vazados de terracota, material produzido a partir de argila queimada. Essas peças funcionam como uma camada de proteção diante das aberturas.
Os pequenos espaços deixam o vento passar, mas reduzem a entrada direta da luz solar mais forte. Assim, os ambientes recebem claridade, sombra e ventilação natural ao mesmo tempo.
Essas peças vazadas também criam desenhos de luz e sombra no interior da escola. O efeito muda ao longo do dia, acompanhando a posição do sol e alterando a aparência dos corredores e áreas coletivas.
A terracota não trabalha sozinha. Ela faz parte de um conjunto que inclui paredes abertas, tijolos aparentes, pátios e aberturas posicionadas nas direções predominantes do vento.
Jardins, pátios e corredores criam caminhos para o vento
As salas destinadas às crianças menores possuem jardins individuais. Esses espaços ajudam a integrar o interior das salas com as áreas externas e reduzem a sensação de confinamento.
Entre algumas salas, foram criadas passagens que funcionam como corredores de vento. O ar encontra espaços para entrar, atravessar o prédio e sair, em vez de permanecer preso em corredores fechados.
As principais aberturas acompanham as direções sudeste e noroeste. Passagens menores também foram posicionadas no sentido leste e oeste, formando rotas adicionais para a circulação natural.
No centro da escola existe um pátio coberto com entradas de luz no teto. O espaço foi planejado para intervalos, reuniões escolares, exposições, treinamentos e encontros menores.
Além de reunir alunos e professores, o pátio permanece ligado visualmente aos diferentes níveis do prédio. Essa disposição ajuda a criar áreas abertas, iluminadas e conectadas, sem eliminar a proteção necessária contra o sol.
Escola sustentável não depende de apenas um material
Os tijolos feitos com resíduo industrial são a parte mais visível do projeto, mas não explicam sozinhos o conforto das salas. O resultado depende da combinação entre materiais, posição das aberturas, sombra, jardins e direção dos ventos.
Uma parede feita com cinza volante não expulsa o calor por conta própria. Quem realiza essa função são as aberturas superiores e a ventilação cruzada, apoiadas pelos corredores de vento e pelos elementos vazados.
Da mesma forma, o uso de um resíduo industrial não torna qualquer obra automaticamente sustentável. A origem do material, a distância de transporte, a segurança da composição e a durabilidade precisam fazer parte da avaliação.
Na Rane Vidyalaya, a arquitetura sustentável aparece como um sistema integrado. Cada elemento possui uma função prática e, ao mesmo tempo, contribui para a identidade visual da escola.
A construção mostra como técnicas antigas podem orientar soluções atuais sem abandonar segurança, conforto e simplicidade. Tijolos de cinza volante, paredes abertas e ventilação natural trabalham juntos para reduzir o abafamento em uma região de clima quente.
Uma escola que usa o próprio desenho para controlar o calor pode oferecer mais conforto sem depender apenas de máquinas, mas essa solução funcionaria também nas escolas públicas das regiões mais quentes do Brasil?

