Cavada à mão geração após geração nas encostas de um desfiladeiro, uma aldeia armênia chegou a ter 8 mil moradores empilhados em quase 2 mil grutas, onde o teto de uma casa era o quintal do vizinho de cima

bruno teles
Cavada à mão geração após geração nas encostas de um desfiladeiro, uma aldeia armênia chegou a ter 8 mil moradores empilhados em quase 2 mil grutas, onde o teto de uma casa era o quintal do vizinho de cima

Vista de longe, a aldeia parecia um único prédio de muitos andares. Havia moradias a 30 metros de altura, alcançadas por corda, e túneis escondidos ligando pontos distantes. Em 1913, o lugar tinha sete escolas, quatro igrejas e 27 lojas.

A antiga Khndzoresk fica no sudeste da Armênia, na província de Syunik, a cerca de 13 quilômetros da cidade de Goris, escavada nas encostas de um desfiladeiro de rocha vulcânica. No início do século 20, era a maior aldeia do leste armênio, com aproximadamente 8.300 moradores distribuídos em 1.800 casas talhadas na pedra.

O arranjo espacial é o que torna o lugar único. As moradias eram empilhadas umas sobre as outras, e o telhado de uma servia de quintal para a casa imediatamente acima. Evidências arqueológicas indicam ocupação por mais de mil anos, e o povoado só foi abandonado na década de 1950, segundo reportagem publicada pela revista Smithsonian.

Uma aldeia que parecia um prédio único

Aldeia armênia escavada nas encostas de um desfiladeiro teve 8.300 moradores em 1.800 casas de pedra empilhadas. Veja por que foi abandonada em 1958.

A descrição mais precisa do lugar não vem de arquiteto, e sim de quem o viu de longe. Registros históricos apontam que, à distância, o conjunto se assemelhava a um grande edifício de vários andares.

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O efeito era consequência direta da geografia. Como não havia terreno plano, cada nova geração cavava mais acima ou mais abaixo na encosta, sobrepondo moradias em vez de espalhá-las lateralmente.

As casas não eram cavernas simples. Tinham vários cômodos, e algumas ficavam a 20 ou 30 metros de altura em relação ao nível inferior, o que exigia escalada com auxílio de cordas para chegar até elas.

Havia também circulação interna. Os moradores se deslocavam entre diferentes pontos da aldeia por uma série de túneis escondidos, sistema que servia tanto ao dia a dia quanto à defesa.

Sete escolas, quatro igrejas e 27 lojas

O inventário de 1913 desmonta qualquer ideia de que aquilo fosse um agrupamento rudimentar de abrigos.

O povoado tinha sete escolas, quatro igrejas, três tinturarias, várias oficinas de couro e cerca de 27 outras lojas. Era uma economia local funcionando dentro da rocha.

A infraestrutura religiosa e civil também foi escavada. Existem igrejas rupestres talhadas diretamente no penhasco, além de um palácio construído em 1836 e um reservatório de água entalhado na pedra, preservado até hoje perto de uma das igrejas.

O crescimento populacional foi rápido no período. Os moradores eram cerca de 4.200 no fim do século 19 e praticamente dobraram na primeira metade do século 20, chegando aos 8.300 registrados.

O nome tem duas explicações e ninguém sabe qual vale

Aldeia armênia escavada nas encostas de um desfiladeiro teve 8.300 moradores em 1.800 casas de pedra empilhadas. Veja por que foi abandonada em 1958.

A origem da palavra Khndzoresk é disputada, e as duas versões dizem algo sobre o lugar.

A primeira é botânica. Khndzor significa maçã em armênio, e a região é farta em macieiras, o que justificaria o batismo.

A segunda é topográfica. O nome poderia derivar de Khor Dzor, que significa desfiladeiro profundo ou abismo profundo, referência direta aos penhascos onde a aldeia foi construída.

Pesquisadores não sabem exatamente quando as primeiras grutas foram abertas. O registro escrito mais antigo é do século 13, quando o povoado aparece em uma lista de aldeias obrigadas a pagar impostos ao Mosteiro de Tatev.

Por que saíram, e a versão que ninguém gosta de contar

O esvaziamento aconteceu em 1958, quando os moradores construíram uma nova aldeia mais acima no cânion. O motivo é controverso e há duas explicações concorrentes.

A primeira aponta causa natural. Um terremoto na década de 1930 teria devastado o povoado e tornado as moradias inseguras, provocando saída gradual ao longo dos anos seguintes.

A segunda aponta decisão política. Segundo essa versão, os moradores foram forçados a se mudar por dirigentes soviéticos, que consideravam a vida em grutas incivilizada e queriam aproveitar as rochas como material de construção.

Existe um desdobramento dessa segunda versão que a maior parte das matérias sobre o lugar não menciona, e ele é o mais triste. Durante o período soviético, quando surgiu a necessidade de erguer as novas casas, os próprios moradores passaram a desmontar as estruturas antigas para usar as pedras, o que causou dano significativo ao conjunto histórico que havia se preservado até ali.

A ponte que os moradores fizeram com as próprias mãos

Aldeia armênia escavada nas encostas de um desfiladeiro teve 8.300 moradores em 1.800 casas de pedra empilhadas. Veja por que foi abandonada em 1958.

O acesso ao sítio hoje passa por uma estrutura construída em 2012, e ela tem história própria.

A ponte suspensa tem 160 metros de comprimento e fica a aproximadamente 63 metros acima do fundo do desfiladeiro, pesando cerca de 14 toneladas. Foi erguida com recursos e mão de obra locais, sem financiamento externo.

O método de construção é o detalhe mais impressionante. Relatos sobre a obra indicam que os moradores a construíram com as próprias mãos e com auxílio de cavalos, sem maquinário moderno, seguindo a mesma lógica de trabalho manual que criou as grutas séculos antes.

Há divergência sobre o que exatamente a ponte liga. Parte das fontes afirma que ela conecta a aldeia antiga à nova, enquanto registros locais informam que ela une dois setores da própria aldeia antiga, chamados Ghandunts nov e Nerkin tagh. Para chegar até ela, é preciso descer cerca de 400 degraus a partir do estacionamento.

O comandante enterrado ali e a fonte das Nove Crianças

Dois episódios ligam o desfiladeiro à história militar e ao folclore armênio, e ambos podem ser vistos do percurso.

A fortaleza de Khndzoresk serviu de base militar para Mkhitar Sparapet entre 1728 e 1730, durante o movimento de libertação liderado por David Bek contra o domínio otomano. O desfecho é sombrio: em 1730, os próprios moradores o mataram, temendo que os otomanos atacassem a aldeia caso o encontrassem escondido ali. O túmulo de pedra dele está em uma ermida do século 17, perto do fundo do cânion.

O outro episódio é uma lenda ligada a uma fonte. Segundo a tradição local, durante um ataque à aldeia, mulheres e crianças precisaram lutar ao lado dos homens. Uma mãe viúva chamada Sona morreu em combate, deixando nove filhos órfãos.

O pai dela, Ohan, construiu depois uma fonte com uma bacia que lembra um seio feminino, batizada de Nove Crianças. Ele a inaugurou com uma única oração, pedindo que a água se transformasse em leite e protegesse os netos órfãos.

Um registro histórico dá peso a essas narrativas de cerco. Em 1735, o chefe da Igreja Apostólica Armênia, Abraham Kretatsi, visitou a aldeia e descreveu a comunidade, anotando que as grutas serviam não apenas como moradia, mas também como abrigo em situações de perigo.

O que restou

Hoje o gado entra e sai dos cômodos escavados, pastando entre as antigas casas de pedra. Algumas grutas foram convertidas em estábulos ou depósitos pelos moradores da aldeia nova.

A visitação é livre e gratuita, e o sítio fica próximo da fronteira com o Azerbaijão, em uma região de acesso que já passou por alterações nos últimos anos. Quem for planejar viagem deve conferir a situação da estrada antes de sair.

O que fica dessa história

Mil anos de escavação manual, 1.800 casas empilhadas até parecerem um prédio só, cordas para alcançar moradias a 30 metros, túneis escondidos, sete escolas dentro da pedra e uma saída em 1958 que ninguém explica do mesmo jeito. A antiga Khndzoresk é ao mesmo tempo obra de engenharia popular e retrato do que acontece quando um governo decide que um modo de vida não serve mais.

E você, o que acha? Morar em casa escavada na rocha é sinal de pobreza ou de inteligência arquitetônica adaptada ao terreno? Você acha certo um Estado obrigar uma comunidade inteira a mudar de casa em nome do progresso, ou isso é apagamento cultural? E mais: atravessaria uma ponte suspensa de 160 metros a 63 metros de altura, construída à mão por moradores e que balança a cada passo? Comente sua opinião, principalmente se você conhece no Brasil algum lugar que também foi esvaziado por decisão de cima para baixo.

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