Moradores de uma pequena cidade convivem há cerca de dois anos com ruído de data centers semelhante a um aspirador ligado sem parar e agora processam a operadora após relatarem prejuízos ao sono, às atividades ao ar livre e à rotina dentro de casa

fabio lucas carvalho
Moradores de uma pequena cidade convivem há cerca de dois anos com ruído de data centers semelhante a um aspirador ligado sem parar e agora processam a operadora após relatarem prejuízos ao sono, às atividades ao ar livre e à rotina dentro de casa

Moradores de Michigan e Wisconsin afirmam que o barulho contínuo de sistemas de refrigeração, geradores e outros equipamentos prejudica o sono e a rotina, enquanto autoridades adotam limites sonoros e legisladores discutem novas regras para os data centers

De acordo com o jornal NewsWeek, moradores de cidades nos Estados Unidos recorreram à Justiça contra operadoras de data centers, alegando que o ruído contínuo de sistemas de refrigeração, geradores e outros equipamentos prejudica o sono, as atividades ao ar livre e a rotina dentro das residências.

Moradores de Michigan relatam ruído constante há dois anos

Proprietários de imóveis em Dowagiac, pequena cidade de Michigan, processaram a Alliance Cloud Services, subsidiária da Hyperscale Data, por causa de um ruído que descrevem como agudo, incessante e perceptível durante o dia e a noite.

A ação, identificada como Valenzuela et al. v. Alliance Cloud Services, LLC, foi apresentada em 26 de maio. Segundo os moradores, o prédio produz o som constante há aproximadamente dois anos.

Os demandantes afirmam que o barulho interfere no sono, nas atividades realizadas fora das residências e na vida cotidiana. Vizinhos compararam o som ao de um aspirador de pó mantido continuamente ligado dentro de casa.

Um morador descreveu o ruído como semelhante ao de um aspirador cujo filtro precisa ser limpo. Segundo ele, o equipamento produziria um zumbido agudo, como se tivesse sido deixado ligado permanentemente.

Antes dos planos relacionados à inteligência artificial, o local funcionava como uma operação de mineração de criptomoedas. Posteriormente, a empresa anunciou que pretendia direcionar a instalação para computação de inteligência artificial e robótica avançada.

A companhia afirmou que planejava investir US$ 100 milhões no empreendimento. Também comunicou ter comprado hectares adicionais de terra para tentar limitar uma possível poluição sonora nas propriedades próximas.

Na ocasião, a empresa disse aos moradores que, caso essa medida não funcionasse, “compraria suas propriedades”.

Cidade estabelece limites para o ruído de data centers

A disputa também provocou uma reação das autoridades municipais. Dowagiac aprovou uma lei sobre ruído industrial que estabelece limites diferentes para os períodos diurno e noturno.

Pela norma, o som não pode ultrapassar 65 decibéis durante o dia e 55 decibéis à noite. A cidade aplicou multa à empresa por supostas violações desses limites.

A Hyperscale Data contestou tanto as medições realizadas pela administração municipal quanto a metodologia utilizada para a coleta dos dados.

Na ação judicial, os moradores apresentam medidas de engenharia que, segundo eles, deveriam fazer parte de uma instalação projetada adequadamente para controlar a emissão sonora.

A lista inclui barreiras acústicas e muros no perímetro, materiais de isolamento, cobertores acústicos, atenuadores de som e sistemas de refrigeração com níveis menores de ruído.

Os demandantes alegam que a Alliance Cloud Services não implementou versões adequadas dessas soluções. As afirmações constam da queixa judicial e não representam admissão da empresa.

Centro da Microsoft enfrenta processo em Wisconsin

As reclamações não estão limitadas a Michigan. Moradores próximos ao centro de dados Fairwater, da Microsoft, em Mount Pleasant, Wisconsin, e na cidade vizinha de Sturtevant também apresentaram uma ação coletiva proposta.

O processo, denominado Ostergaard et al. v. Microsoft Corporation, foi apresentado em 1º de julho. Os autores alegam que as instalações produzem um nível excessivo e injustificado de ruído.

Segundo a ação, o som provocado pelos sistemas de refrigeração, geradores e outros equipamentos pode ser ouvido a até uma milha e meia além dos limites da propriedade da Microsoft.

Os demandantes afirmam que o barulho prejudicou o sono e reduziu a capacidade de aproveitar suas casas e quintais. Alguns moradores classificaram o som como um zumbido contínuo de baixa frequência.

A ação busca indenização e sustenta que a Microsoft não adotou medidas suficientes para reduzir o problema. A empresa ainda não apresentou publicamente uma defesa formal no processo.

A Microsoft, no entanto, divulgou ações realizadas para enfrentar as reclamações. Equipes de engenharia e consultores acústicos externos investigaram a origem do zumbido, enquanto testes foram conduzidos na própria instalação.

A empresa também afirmou ter instalado medidas de curto prazo e informou que novos componentes de redução sonora estão sendo implementados. O planejamento inclui acompanhamento contínuo da situação.

Segundo a Microsoft, o monitoramento independente e relatos de alguns vizinhos indicaram que o problema original do zumbido havia sido resolvido. A ação judicial, por outro lado, afirma que os impactos continuam.

Reclamações avançam para o debate político na Virgínia

No condado de Loudoun, na Virgínia, a concentração de fazendas de servidores fez a região receber a denominação de “Corredor dos Data Centers”. Ali, o ruído tornou-se uma reclamação recorrente de moradores e organizações comunitárias.

Pessoas que vivem perto dessas instalações em Sterling relataram zumbidos de baixa frequência, sons semelhantes aos de hélices e ruídos agudos perceptíveis a quilômetros de distância.

Em reclamações envolvendo uma instalação da Vantage Data Centers, proprietários de casas próximas afirmaram que o barulho das turbinas tornou os espaços externos inutilizáveis.

O problema passou a ocupar também a agenda legislativa. Parlamentares da Virgínia propuseram regras específicas para diminuir o ruído produzido pelos centros de dados.

As propostas incluem a realização de estudos acústicos, a notificação das comunidades vizinhas e o monitoramento sonoro de longo prazo. A questão também aparece em debates de zoneamento e audiências públicas sobre novos projetos de hiperescala.

Expansão da inteligência artificial amplia preocupações locais

As disputas em Michigan, Wisconsin e Virgínia acontecem enquanto empresas constroem instalações maiores para atender à demanda crescente por capacidade computacional relacionada à inteligência artificial.

Além do ruído, moradores de algumas comunidades apontam preocupações com poluição luminosa, consumo de água, demanda por eletricidade e pressão sobre o uso da terra e outros recursos locais.

Operadores e grupos industriais sustentam que projetos mais modernos, barreiras acústicas e tecnologias aprimoradas de refrigeração podem reduzir esses impactos.

Com novas instalações voltadas à inteligência artificial sendo propostas nos Estados Unidos, o controle do ruído passou a integrar os debates locais sobre os lugares e as condições em que a próxima geração de data centers poderá ser construída.

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