Inteligência artificial decifra as regras de um jogo de tabuleiro romano perdido, encontrado em uma pedra de 20 centímetros na Holanda

fabio lucas carvalho
Inteligência artificial decifra as regras de um jogo de tabuleiro romano perdido, encontrado em uma pedra de 20 centímetros na Holanda

Guardado no Museu Romano de Heerlen, o artefato de calcário apresentava linhas incomuns e marcas de desgaste deixadas pelo movimento repetido de peças. Simulações digitais indicaram que o Ludus Coriovalli era um jogo assimétrico de bloqueio e anteciparam em vários séculos a presença desse tipo de passatempo na Europa.

Um jogo de tabuleiro romano perdido, identificado em uma pedra guardada por décadas em um museu holandês, teve suas regras reconstruídas com ajuda de inteligência artificial. O objeto revela uma forma de entretenimento até então desconhecida no Império Romano.

A descoberta começou em 2020, quando o arqueólogo Walter Crist visitou o Museu Romano de Heerlen, na Holanda, durante uma pausa nas restrições da pandemia. Em uma vitrine, ele encontrou uma pequena laje de calcário com desenhos geométricos incomuns.

A peça, com cerca de 20 centímetros de diâmetro, exibia um octógono alongado dentro de um retângulo. Embora estivesse catalogada como possível tabuleiro, o padrão não correspondia a nenhum jogo romano conhecido pelo pesquisador.

Pedra reaproveitada guardava sinais de uso

O artefato, registrado como objeto 04433, foi produzido em calcário de Norroy, material importado da França pelos romanos para colunas e monumentos. Nesse caso, a pedra provavelmente foi reaproveitada de entulho e recebeu linhas gravadas de forma deliberada.

Ela foi encontrada no fim do século XIX ou início do século XX, mas sem registro arqueológico detalhado. Por isso, sua função permaneceu incerta: poderia ser um exercício de pedreiro, um desenho casual ou um verdadeiro jogo de tabuleiro.

A resposta apareceu nas marcas de desgaste. Análises da superfície identificaram áreas lisas e abrasões concentradas em linhas específicas, compatíveis com o movimento repetido de peças de vidro ou pedra sobre o calcário.

Essas marcas indicavam não apenas que o objeto havia sido usado, mas também quais trajetos eram percorridos com maior frequência. Uma das diagonais apresentava desgaste mais intenso, oferecendo uma pista decisiva para reconstruir a dinâmica do jogo.

Inteligência artificial testou milhares de partidas

Os pesquisadores recorreram ao Projeto Digital Ludeme e ao sistema Ludii. Agentes de inteligência artificial receberam uma versão digital do tabuleiro e testaram centenas de combinações de regras inspiradas em jogos tradicionais europeus.

Cada conjunto foi disputado em 1.000 partidas simuladas. O sistema comparou os caminhos percorridos pelas peças digitais com as áreas desgastadas na pedra, descartando modelos que não produziam padrões semelhantes.

Foram avaliadas formações com diferentes quantidades de peças, além de jogos de alinhamento e de bloqueio. O resultado mais compatível apontou para uma disputa assimétrica, na qual um jogador tenta imobilizar o adversário.

Jogo de tabuleiro ganhou regras reconstruídas

Batizado de Ludus Coriovalli, ou Jogo de Coriovallum, o passatempo teria quatro peças controladas por um jogador e duas pelo outro. As quatro funcionariam como “cães”, enquanto as duas restantes seriam as “lebres”.

Os cães começariam nos quatro pontos mais à esquerda. As lebres ocupariam os dois pontos internos do lado direito. A cada rodada, os participantes moveriam uma peça para um espaço vazio adjacente, seguindo as linhas gravadas.

O objetivo dos cães seria bloquear completamente as lebres. Já o jogador das lebres tentaria permanecer livre pelo maior tempo possível. Venceria quem conseguisse resistir mais tempo nessa posição durante as partidas.

Achado muda a história dos jogos de bloqueio

Jogos desse tipo eram associados principalmente à Escandinávia medieval e a passatempos como Raposa e Gansos. O tabuleiro de Heerlen indica que mecanismos semelhantes já eram conhecidos no período romano, séculos antes dos registros medievais.

A descoberta também apresenta um novo uso para a inteligência artificial na arqueologia. Em vez de apenas organizar dados, o sistema simulou comportamentos humanos e ajudou a interpretar marcas físicas deixadas pelo uso cotidiano.

O Ludus Coriovalli amplia o conhecimento sobre o lazer em Coriovallum, cidade romana que existiu onde hoje fica Heerlen. A pedra mostra que atividades simples, realizadas com peças móveis, também faziam parte da vida social romana. Agora, suas regras reconstruídas permitem que o público experimente novamente esse passatempo.

Jogos antigos chama a atenção dos arqueólogos

Jogos antigos ajudam arqueólogos a compreender hábitos sociais, estratégias de raciocínio e formas de convivência de populações passadas.

Como muitos tabuleiros eram feitos de madeira, terra ou materiais perecíveis, poucos sobreviveram, tornando cada exemplar preservado especialmente importante. Nesse caso, o desgaste microscópico funcionou como um registro indireto das partidas, permitindo comparar movimentos simulados com marcas reais.

A combinação entre arqueologia e inteligência artificial também abre espaço para analisar outros objetos sem função conhecida, desde que apresentem padrões físicos capazes de registrar uso repetido. Assim, o método pode ampliar a interpretação de peças guardadas em museus.

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