Alfredo Gaspar foi anunciado como vice-presidente de Flávio na chapa do PL.Foto: Beto Barata/ND Mais
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) anunciou nesta quarta-feira (5), em Brasília, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL) como candidato a vice-presidente em sua chapa.
A decisão contraria sinalizações anteriores da campanha, que cogitou ao menos cinco nomes femininos para a vaga.
Flávio repetiu diversas vezes que tinha preferência por uma mulher ao seu lado no comando do país, mas, sem conseguir avançar na articulação de legendas aliadas como Progressistas e Republicanos, revelou ao país, ao lado de seis personalidades políticas com ampla representatividade feminina, o nome de Gaspar como vice.
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Mulheres foram escaladas para resguardar escolha de vice homem para Flávio.Foto: Beto Barata/PL/ND Mais
A escolha do deputado alagoano altera também o cenário eleitoral no reduto político nordestino. O deputado liderava as pesquisas de intenção de voto para o Senado Federal e deixa a disputa livre para Renan Calheiros (MDB) e Arthur Lira (PP), figuras marcantes no chamado ‘centrão’.
Analistas ouvidos pelo Portal ND Mais apontam que a composição da chapa busca reforçar o discurso anticorrupção a partir da expressividade de Gaspar como relator da CPMI do INSS, além de atrair votos na região Nordeste.
Lucas Pimenta e Sávio di Maio analisam implicações da escolha de Flávio.Foto: Divulgação/ND Mais
Entretanto, a estratégia é vista como insuficiente para dialogar com o eleitorado feminino que tem demonstrado rejeição ao nome de Flávio nas pesquisas de intenção de votos.
Enquanto o bolsonarista é opção dos homens, de classe social elevada, Lula, seu principal adversário nas urnas, tem maior aderência entre os mais pobres e as mulheres.
Foco no Nordeste e na CPI do INSS
O cientista político Sávio Di Maio afirma que a origem nordestina de Gaspar atende a uma necessidade da campanha bolsonarista, uma vez que a região apresenta resistência ao candidato e concentra votos à esquerda.
“As decisões da campanha de Flávio Bolsonaro até aqui nem sempre são muito racionais. Mas, a gente pode analisar a partir do óbvio. Alfredo Gaspar é nordestino, uma identidade importante para a campanha de Flávio Bolsonaro, porque é justamente um dos eleitorados mais difíceis, que demonstram mais resistência e que votam com mais peso à esquerda. Então, o fato de ele ser nordestino ajuda nesse sentido”, pondera.
Alfredo Gaspar é deputado federal pelo PL e já havia sido anunciado candidato ao Senado por Alagoas.Foto: Geraldo Magela/Agência Senado/ND Mais
Além disso, segundo Di Maio, o histórico de Gaspar como relator da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). O tema permite a Flávio Bolsonaro inflar sua campanha com a narrativa anticorrupção, concentrando ataques a Lula que teve o filho implicado por relações com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como Careca do INSS.
Antônio ganhou notoriedade por ser peça-chave e intermediador do esquema bilionário de desvio das aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS.
Pautar o INSS é mais compreensível do que usar relação do PT com Vorcaro, que também atinge Flávio, avalia analista.Foto: Montagem feita com imagens do Youtube, Senado e das redes sociais/ND Mais
“É muito mais fácil você moralizar a questão do INSS, porque, em vez de você tentar explicar para a população o que que foi o escândalo do Master, que é complicado, tem a ver com dívidas, tem a ver com com questões financeiras, que a gente não consegue entender no dia a dia, a CPMI do INSS trata mais a questão do rombo aos aposentados. É fácil de explicar para a população, avalia Savio ao ponderar que levantar o tema do Banco Master pode ‘azedar’ o debate de Flávio em razão do financiamento milionário de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse, que retrata a vida de Jair Bolsonaro.
Impacto eleitoral no voto feminino
A análise acerca da escolha de Gaspar também implica na estratégia eleitoral do bolsonarista. Para o especialista em marketing político, Lucas Pimenta, Flávio Bolsonaro não acerta na definição uma vez que registra alta rejeição entre as mulheres.
“Alfredo Gaspar, por óbvio, além de não ser mulher, também não tem um perfil moderado, que seria outro objetivo de Flávio para atrair o eleitor de Centro. Alfredo está até mais à Direita que Flávio. E Flávio tem como grande objetivo, o eleitor moderado”, considera o profissional.
A visão é corroborada por Sávio di Maio, ao pontuar que no quadro do Partido Liberal há lideranças femininas regionais que poderiam compor a chapa.
“A ideia de representatividade ela quase sempre é tosca no bolsonarismo. Você bota uma mulher na foto e é isso aí. Só que, obviamente, as mulheres que não votam no bolsonarismo não votam porque falta representatividade. Elas não votam porque sentem que aquele projeto político as inclui como auxiliadoras, mas não permite espaço para que mulheres realmente se destaquem e sejam tomadoras de decisão”, comenta.
Lucas Pimenta ainda complementa que a escolha pelo político alagoano não ‘vira voto’ sinalizado a outras figuras do campo conservador como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), além de não surtir efeito nos indecisos que ainda relutam apontar um caminho nas urnas.
Acusações criminais no histórico de Gaspar devem servir de munição para a esquerda
Os dois analistas indicam que o passado de Alfredo Gaspar representa um risco para a campanha bolsonarista.
O deputado foi acusado, durante a CPMI, de engravidar uma adolescente. A acusação partiu da senadora Soraya Thronicke (PSB) e do deputado federal Lindbergh Farias (PT), que chegaram a acionar a Polícia Federal contra crimes de estupro de vulnerável. Gaspar negou a acusação, realizou exame de DNA, afirmou que o responsável pelo crime era um primo. Ele processou os acusadores na PGR (Procuradoria-Geral da República) e na Polícia Federal por denunciação caluniosa.
Flávio surpreendeu com escolha após passar pré-campanha repetindo que preferiria uma mulher ao seu lado no comando do país.Foto: Beto Barata/ND Mais
Apesar da defesa do deputado e uma eventual comprovação da nulidade das acusações, o tema já afeta a chapa. Pimenta aponta que adversários políticos já resgataram a citaram a acusação imediatamente após o anúncio, a exemplo do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL-SP).
Sávio Di Maio afirma que a oposição explorará o caso de forma intensiva ao longo da campanha. Segundo o cientista político, o discurso dos adversários focará no fato de Flávio Bolsonaro ter descartado opções femininas para escolher um político com uma acusação de abuso sexual no currículo.
“É a família tradicional brasileira escancarando sua hipocrisia. Isso, com certeza, vai ser profundamente explorado pela campanha de Lula e pela esquerda como um todo. Por mais que, talvez, ele já tenha conseguido nos autos dos do processo se desvincular dessa acusação, a acusação fica. Para que escolher uma pessoa que tem um passado como esse?”, questiona o cientista.
Sávio aposta ainda num recuo da campanha. “Eu diria que não é, inclusive, uma escolha definitiva, porque para o bolsonarismo desistir desse nome, pouco custa”, afirmou.
